
Espiritualidade Ecumênica

O Brasil na Segunda Guerra Mundial
Com o fim da Segunda Guerra Mundial (lutada entre 1939 e 1945), duas grandes nações emergiram como as grandes vencedoras: União Soviética (extinta em 1990) e Estados Unidos. O mundo ficou polarizado entre o capitalismo e o socialismo; poucos países permaneceram não alinhados.
A Segunda Guerra Mundial foi um conflito armado que se estendeu de 1939 a 1945, colocando em confronto Alemanha, Itália e Japão de um lado e Inglaterra, França e EUA, de outro. A guerra se espalhou pela África, Ásia e Oceania. O Brasil participou ativamente na Segunda Guerra de 1942 a 1944. A Segunda Guerra é considerada o maior confronto bélico da história.

Na época, o Brasil vivia sob o Estado Novo (1937-1945), ditadura de Getúlio Vargas semelhante em vários pontos aos regimes fascistas instalados em várias nações europeias, o que preocupava principalmente os EUA. Caso o país se aliasse a Adolf Hitler e Benito Mussolini (respectivamente os ditadores da Alemanha e Itália), poderia ceder pontos estratégicos de apoio, para facilitar o trabalho do Eixo na África, reduzindo a resistência de um dos fronts de batalha.
Em 1940, a preocupação americana rendeu um valioso empréstimo para o Brasil: 20 milhões de dólares, valor à época suficiente para a construção da Usina de Volta Redonda (RJ). No final do ano seguinte, os EUA, que já apoiavam a Inglaterra, entraram definitivamente no conflito, em resposta ao ataque japonês à base naval de Pearl Harbor, no Havaí.
O governo americano pressionou Getúlio Vargas, para que o Brasil participasse do confronto. Coincidência ou não, cinco navios da marinha mercante brasileira foram atacados por submarinos alemães (ao menos, esta é a versão oficial) e, em agosto de 1942, o Brasil declarou guerra ao Eixo e entrou no confronto.
Politicamente, era interessante a Getúlio Vargas a aproximação com os militares, para sustentar-se no poder. No ano seguinte, foi criada a Força Expedicionária Brasileira (FEB), destacamento militar que lutou na Itália, com o apoio da Força Aérea Brasileira (FAB). A participação brasileira na Segunda Guerra Mundial inicialmente limitou-se a apoio logístico: Natal, capital do Rio Grande do Norte, foi utilizada como local de abastecimento para as aeronaves e base antissubmarinos.
Em 1944, foram enviados 25 mil soldados para as batalhas, que lutaram ao lado de tropas americanas. Apesar de não estar acostumada a lutar em terrenos montanhosos e sofrer muito com o frio, a FEB obteve boas vitórias em Monte Castelo, Montese, Turim e outras cidades italianas ocupadas pelos alemães. 14 mil combatentes nazistas se renderam nestes embates.
O país perdeu 943 jovens na Segunda Guerra Mundial. Os soldados brasileiros ficaram conhecidos como “pracinhas”. Com o fim da guerra, a FEB foi desfeita em 1946.
O fim da Segunda Guerra Mundial também fez soprar ventos democráticos no país. A ditadura de Getúlio Vargas, assim como a guerra, chegou ao fim em 1945.
Causas da Segunda Guerra Mundial
A Segunda Guerra Mundial foi um conflito iniciado na Europa em 1939, com a invasão da Polônia pela Alemanha. O então líder alemão, Adolf Hitler, alegava necessidade de “espaço vital” para invadir o país vizinho. França e Inglaterra se posicionaram contrárias à invasão e a guerra estourou. Um ano antes, no entanto, a Alemanha havia anexado a Áustria e a comunidade internacional não reagiu.

Mas a geração do “ovo da serpente” (filme de Ingmar Bergman sobre as condições sociais e econômicas da Europa nos anos 1930) aconteceu antes. Alemanha, Itália, Portugal e Espanha, além de países balcânicos, passaram por sérias crises econômicas, comprometendo emprego e renda. Esta situação miserável propiciou a eclosão de regimes autoritários, como o nazismo alemão, com Hitler, e o fascismo italiano, com Benito Mussolini. Na Espanha, o general Francisco Franco, com a ajuda desses dois amigos, derrubou o governo e instalou-se no poder em 1938, só saindo com a sua morte, em 1975.
Esses governos fomentavam no povo um forte sentimento nacionalista. A negação aos direitos das minorias tornou-se regra: judeus, ciganos e homossexuais passaram a ser perseguidos sistematicamente, o que culminou na adoção da “solução final”, com o extermínio de milhões de vidas.
Fenômeno semelhante ocorreu no Japão, que também se rendeu à ultradireita. O governo japonês tinha planos de anexar a China ao seu império. O Japão invadiu a China em 1937, provocando protestos do governo dos EUA, que tinha fortes interesses comerciais da região. Os EUA determinaram o embargo das exportações para o Japão, o que deixou as relações dos dois países ainda mais tensas, até o ataque japonês à base aérea de Pearl Harbour (Havaí), em 1941, que foi a senha para os norte-americanos declararem guerra.
Alguns historiadores consideram que o Tratado de Versalhes, que pôs fim à Primeira Guerra Mundial, é também causa da Segunda, pelas condições humilhantes impostas à Alemanha, derrotada no conflito, mas é mais exato dizer que este tratado amplificou as causas, mas não as criou. Os três países do Eixo – Alemanha, Itália e Japão – tinham objetivos expansionistas evidentes. Hitler afirmava que era preciso dominar o continente europeu, enquanto os japoneses não escondiam suas pretensões imperialistas. O Memorando Tanaka, por exemplo, afirma que a China era apenas o primeiro passo para o domínio da Ásia e, em seguida, os canhões japoneses tinham como alvo os EUA.
Por outro lado, EUA e União Soviética perceberam a janela de oportunidade aberta para conquistar a hegemonia do mundo. Numa guerra, quem conta a história são os vencedores. É impossível avaliar os efeitos de uma vitória do Eixo no conflito, que se arrastou até 1945.
O que foi a Guerra Fria?
Com o fim da Guerra, o planeta passou a testemunhar a maior tensão política da história. Nos dois lados, houve um crescimento exponencial do desenvolvimento de armamentos, em especial os atômicos e nucleares. Em 1945, os EUA já tinham utilizados bombas com esta tecnologia para encerrar o conflito com o Japão. Duas cidades foram atingidas: Hiroshima e Nagasaki.

Na primeira, quase 170 mil pessoas morreram, em sua maioria civis, com o impacto da explosão. Em Nagasaki, as mortes por queimaduras podem ter atingido 80 mil vitimas. Nos meses seguintes, houve muitas outras mortes e hoje, 70 anos depois do lançamento das bombas, ainda existem pessoas prejudicadas pelas detonações.
Isto ajuda a explicar a “importância” da energia nuclear para fins bélicos. Atualmente, depois de muitos tratados internacionais – o Tratado de Não Proliferação de Armas Nucleares, por exemplo, impediu que novos países desenvolvessem a tecnologia para fins militares –, EUA, Rússia, França, Inglaterra, África do Sul, Bielorrússia, Ucrânia, Israel, Índia, Paquistão, China e Coreia do Norte mantêm ogivas nucleares para bombardear os inimigos.
O número pode ser muito maior, já que muitos países, inclusive o Brasil, que instalou três usinas, utilizam energia nuclear para produção de eletricidade. Ao menos, é o motivo oficial. A AIEA, agência da ONU que tenta coordenar a “corrida pelos átomos”, tem atuação limitada, já que não pode interferir na autodeterminação das nações.
Disputa política ou ideológica?
A Guerra Fria foi um confronto tecnológico, militar, econômico e social, além das características ideológicas: a União Soviética disseminava o ideário comunista, baseado no marxismo-leninismo, com o qual conquistou vários países.
Além da Cortina de Ferro (termo cunhado pelo primeiro ministro inglês Winston Churchill), formada por Polônia, Alemanha Oriental (o país foi dividido pelos vencedores depois da Segunda Guerra), Tchecoslováquia (união de dois países: República Tcheca e Eslováquia), Áustria, Hungria, Iugoslávia e Romênia e as repúblicas soviéticas, os russos conseguiram exportar o comunismo para Cuba, Albânia, China e Indochina (Laos, Vietnã e Camboja). China e Iugoslávia desenvolveram concepções diferentes a partir das ideias de Karl Marx.
A URSS – União das Repúblicas Soviéticas – de configurou como um grande império. Antes da formação da Cortina de Ferro, o país já agregava o Azerbaijão, Armênia, Bielorrússia, Cazaquistão, Estônia, Letônia, Lituânia, Moldávia e Ucrânia, além de territórios semi-independentes, como a República Fino-Carélia, na fronteira com a Finlândia.
No período pré-guerra, a Escandinávia e a Inglaterra flertavam com as ideias fascistas dos ditadores Francisco Franco (Espanha), Benito Mussolini (Itália) e Adolf Hitler (Alemanha). O rei inglês Eduardo VIII, tio de Elizabeth II (a atual soberana) teve recentemente divulgadas fotos com o chanceler alemão, inclusive fazendo a reverência nazista.
Do outro lado, os EUA valorizavam a sua esfera de influência. Os governantes do país chegaram a apoiar diversas ditaduras, inclusive no Brasil e em outros países da América Latina. Os americanos ajudaram a combater as guerrilhas no subcontinente não apenas aqui, mas também na Argentina, Chile, Uruguai e Paraguai.
Os EUA foram o primeiro país a reconhecer o governo chileno do general Augusto Pinochet, que depôs o presidente eleito Salvador Allende e permaneceu no poder entre 1973 e 1990. O ditador foi acusado por diversas violações aos direitos humanos e chegou a ser preso em Londres, por crimes de corrupção.
Na Ásia, a “ideologia capitalista” dos americanos foi responsável por manter o ditador Saddam Hussein no poder durante um longo período: de 1979 a 2003. Antes disto , desde 1968, foi vice-presidente do general Ahmed Hassan al-Bakr, que, enfermo, nunca chegou a governar de fato.
O país também foi responsável pelo declínio dos xás (imperadores ou monarcas) do Irã, mas caiu em um beco sem saída: Reza Pahlevi foi deposto em 1979 e a antiga Pérsia instituiu uma república islâmica, baseada nas regras ditadas por Maomé.
Os EUA também armaram o Paquistão e o Afeganistão, envolveram-se em guerras da Coreia e na Indochina. A Guerra do Vietnã se tornou um símbolo da contracultura americana: jovens se recusaram a aceitar o alistamento militar, o movimento do “paz e amor” se espalhou pelo mundo ocidental
Cronologia
O termo “Guerra Fria” é derivado do fato de EUA e URSS nunca terem se confrontado de fato, apesar de os dois países terem participado indiretamente de muitos conflitos bélicos no mundo. Um dos principais símbolos da disputa, que inicialmente tinha como objetivo a produção de um arsenal de proporções absurdas, foi a construção do Muro de Berlim.
Berlim, antes e atualmente capital da Alemanha, foi dividida (em 1945) em quatro setores no pós-guerra: inglês, francês, russo e americano. Em pouco tempo, porém, surgiu o confronto entre capitalistas e socialistas. A sede do governo foi transferida para Bonn e, na madrugada de 13 de agosto de 1961, os russos ergueram uma barreira, para evitar que mais cidadãos fugissem para o lado capitalista. A fronteira, de 43 km de extensão, foi fechada em poucas horas.
A Guerra Fria foi iniciada oficialmente em 1947, quando Harry Truman, presidente dos EUA, fez um discurso prometendo proteger o mundo da “ameaça comunista”. Poucos dias depois, o secretário de Estado George Marshall anunciou uma iniciativa de ajuda para a combalida economia europeia (que ficou conhecida como o Plano Marshall).
Dois anos depois, a URSS deu início aos primeiros testes nucleares. As duas potências passaram a conviver com o espectro de um ataque atômico. Neste mesmo ano, 1949, foi criada a OTAN – Organização do Tratado do Atlântico Norte.
Em 1950, grupos pacifistas americanos começaram a promover atos públicos passaram a pressionar o governo para que ocorresse a desativação das ogivas nucleares. O argumento era que, se um lado tomasse esta iniciativa, o outro lado faria o mesmo. A ideia era boa, mas o que se viu foi um aumento exponencial do arsenal. Atualmente, os EUA possuem cinco mil e 500 ogivas de diferentes variedades.
A Rússia, com o desmembramento da URSS, possui um poder de fogo bem menos: 2.700 ogivas nucleares. O potencial, no entanto é assustador: são exatamente 57 megatons (mil toneladas de dinamite), um valor igual ou maior do que 3.500 bombas de Hiroshima.
Durante a Guerra da Coreia, que dividiu o país em dois territórios: capitalista e socialista (uma derrota dos EUA e aliados), o general Douglas MacArthur assumiu publicamente a possibilidade de detonar uma bomba atômica no Extremo Oriente. Felizmente, isto nunca aconteceu.
A guerra durou três anos, de 1950 a 1953. No final do conflito, morreu Joseph Stálin, secretário geral (e chefe de governo) do Partido Comunista da URSS desde 1922. Assumiu Nikita Kruschev. Um ano antes, a Inglaterra explodiu o primeiro artefato nuclear, na costa noroeste de Austrália: tornou-se mais um membro do clube atômico – e mais uma ameaça da a URSS.
Mas, ainda em 1953, a potência comunista testou a sua primeira arma termonuclear. Perdeu a corrida para os EUA em um ano, mas saíram na frente na “conquista do espaço”: em 1957, os russos lançaram o satélite artificial Sputnik, com uma versão militar para um míssil balístico intercontinental, o Semyorka.
A França conquistou a entrada para o clube atômico em 1960, lançando uma bomba de testes no atol de Bikini, na Polinésia francesa (a palavra biquíni, apenas um maiô de duas peças, deriva desta experiência destrutiva). Um ano depois, a Rússia lançou o primeiro homem ao espaço – um círculo em volta da Terra. O comandante foi o cosmonauta Yuri Gagarin, que cunhou a frase “A Terra é azul”.
Em 1964, a China revelou também ser portadora de um arsenal nuclear. No mesmo ano, Kruschev renunciou e o poder soviético caiu nas mãos de Leonid Brejnev. Cinco anos depois, os americanos anunciaram a criação dos MRV (veículos de reentradas múltiplas, na sigla em inglês), capazes de transportar cinco ogivas nucleares separadas.
A URSS divulgou ter conquistado a mesma tecnologia. Deu-se início a uma tentativa de acordo sobre a tecnologia nuclear, mas as tensões entre chineses e soviéticos quase deram início a um conflito entre os dos países de proporções gigantescas.
A crise dos mísseis
Até 1959, Cuba era apenas uma pequena ilha do mar do Caribe governada com forte influenciada pelos EUA. Neste ano, no entanto, uma revolução depôs o presidente (ou ditador) Fulgêncio Batista e Fidel Castro assumiu o poder no país, alinhando-se às ideologias comunistas.
Em 1961, os americanos apoiaram uma tentativa frustrada para depor o novo governante, o que determinou um alinhamento ainda maior ao bloco socialista. Um ano depois, a URSS tentou instalar uma base de mísseis em território cubano, o que fez o presidente americano John Kennedy cercar a pequena ilha, com ameaça de um ataque nuclear. Foi a crise dos mísseis.
Depois de muitos acordos diplomáticos, a URSS concordou em se retirar do Caribe, desde que os EUA afastassem os mísseis nucleares voltados para o seu território, instalados na Turquia. A ilha caribenha é notável pelos avanços em saúde e educação, mas até hoje se ressente das limitações determinadas pelo regime do partido único.
Mais cronologia
Em 1971, a China comunista substituiu a ilha de Formosa (Taiwan), que ainda considera uma “província rebelde”, no Conselho de Segurança da Organização das Nações Unidas (ONU). Mais um país comunista se reunia às nações com direito a veto nas decisões da organização, ao lado de EUA, Rússia, França e Inglaterra.
Um tratado antibalístico, realizado em 1972, limitou o emprego das bombas nucleares. Foi assinado como SALT I (Treaty on Strategic Offensive Reductions, ou Tratado sobre Reduções Estratégicas Ofensivas), limitando o emprego de apenas dois sistemas nucleares em cada potência.
Dois anos depois, um acordo definiu o limite para arsenais (mísseis antibalísticos intercontinentais, submarinos nucleares e bombardeiros). EUA e URSS, no entanto, continuavam sem discutir a redução das ogivas. Enquanto isto, novos países continuavam a entrar no clube nuclear. O Brasil chegou a cogitar de construir a bomba.
Em 1979, surgiu o SALT II, sempre visando à redução das armas letais – que, a esta altura, já tinham potência para destruir uma Terra e meia. A URSS, no entanto, invadiu o Afeganistão, fato que prejudicou as negociações. Os EUA também invadiram a ilha de Granada, no mar do Caribe, para pôr fim a uma revolução de orientação marxista.
Continuando as negociações com muitas recuadas e avanços, em 1980, surgiu o tratado START (conversação sobre a limitação de armas nucleares), que fez progresso. Três anos depois, o presidente americano propôs um sistema antimísseis chamado “Guerra nas Estrelas”. Seria um escudo contra possíveis ataques nucleares.
Com uma nova constituição, sucederam-se Yuri Andropov, Konstantin Chernenko e Mikhail Gorbatchev como presidentes da URSS. Em 1988, a república socialista retirou-se do Afeganistão, fato que permitiu a atuação dos talibãs e, mais recentemente, o surgimento do Estado Islâmico.
No mesmo período, terminou a Guerra Irã-Iraque (este último país foi armado pelos EUA) e a intervenção da URSS em Angola e em Moçambique, países que conheceram revoluções socialistas nos anos 1970, depois de obter a independência de Portugal, uma das últimas potências imperialistas da Europa.
Em 1989, os alemães derrubaram o muro e reunificaram Berlim e o país, um símbolo de que o comunismo estava desaparecendo. No ano seguinte, o programa SALT II garantiu que as duas potências reduziriam as ogivas nucleares para “apenas” seis mil.
Em 1991, os dois países concordaram em eliminar todos os mísseis táticos terrestres na Europa e na Coreia, reduzindo a possibilidade de ataques com maior proximidade territorial. A URSS desapareceu no mesmo ano, fato que poderia significar o fim da Guerra Fria.
Os constantes ataques da Rússia à Ucrânia, no entanto, como a tomada da península da Crimeia, não podem nos tornar otimistas. A preocupação dos EUA, focada nos conflitos do Oriente Médio, também não serve como um incentivo.
Ao que parece, os homens continuaram a guerrear, aberta ou surdamente. Paus e pedras, conforme profetizou o cientista alemão Albert Einstein, deverão ser as nossas armas para uma possível quarta guerra mundial?

O segredo da felicidade é uma preocupação cada vez mais importante na era moderna, já que o aumento da estabilidade financeira proporciona a muitos a oportunidade de se concentrar no crescimento pessoal. Uma vez que já não somos mais caçadores preocupados em encontrar a próxima presa, procuramos viver nossas vidas da melhor maneira possível.
A busca da felicidade é uma epidemia mundial — em um estudo com mais de 10 mil participantes de 48 países, os psicólogos Ed Diener, da Universidade de Illinois, e Shigehiro Oishi, da Universidade de Virginia, descobriram que pessoas de todos os cantos do mundo consideram a felicidade mais importante do que outras realizações pessoais altamente desejáveis, tais como ter um objetivo na vida, ser rico ou ir para o céu. A febre da felicidade é estimulada em parte pelo crescente número de pesquisas que sugerem que, além de ser boa, a felicidade também faz bem — ela está ligada a muitos benefícios, desde maiores salários e um melhor sistema imunológico até estímulo à criatividade.
A maioria das pessoas entende que a felicidade verdadeira é mais do que um emaranhado de sentimentos intensos e positivos — ela é melhor descrita como uma sensação plena de “paz” e “contentamento”. Não importa como seja definida, a felicidade é parcialmente emocional — e por isso está ligada à máxima de que cada indivíduo tem um ponto de regulação, como um termostato, definido pela bagagem genética e a personalidade de cada um.
A felicidade verdadeira dura mais do que uma dose de dopamina, por isso é muito importante pensar nela como algo que vai além da emoção. A sensação de felicidade de cada um também inclui reflexões cognitivas, tais como quando você ri — ou não! — da piada do seu melhor amigo, ou quando analisa o formato do seu nariz ou a qualidade do seu casamento. Somente parte desta sensação tem a ver com o que você sente; o resto é produto de um cálculo mental, em que você computa suas expectativas, seus ideais, a aceitação daquilo que não pode mudar e inúmeros outros fatores. Assim, a felicidade é um estado mental e, como tal, pode ser intencional e estratégico.
Não importa qual seja o seu ponto de regulação emocional, seus hábitos diários e suas escolhas — da maneira como você lida com uma amizade até como reflete sobre decisões em sua vida — podem influenciar o seu bem-estar. Os hábitos de pessoas felizes foram documentados em estudos recentes e fornecem uma espécie de manual a ser seguido. Aparentemente (e paradoxalmente, é preciso dizer), atividades que causam incerteza, desconforto, e mesmo uma pitada de culpa estão associadas às experiências mais memoráveis e divertidas das vidas das pessoas. As pessoas mais felizes, ao que parece, têm vários hábitos não-intuitivos que poderiam ser considerados como infelizes. Ou seja, nem tudo aquilo que os livros de auto-ajuda defendem que pode te fazer feliz tem parcela significativa na sua felicidade. A felicidade pode vir de onde menos se esperava. Duvida? Que bom, isso significa que você tem grandes chances de ser feliz. Confira a seguir como.

Pessoas verdadeiramente felizes aparentam saber intuitivamente que a felicidade duradoura não se trata apenas de fazer aquilo de que gostamos. Ela também exige crescimento pessoal e se aventurar além dos limites da sua zona de conforto. Em um estudo de 2007, os psicólogos do estado do Colorado Todd Kashdan e Michael Steger monitoraram as atividades diárias de estudantes e como eles se sentiam durante 21 dias; aqueles que sentiam curiosidade em determinado dia também se diziam mais satisfeitos com a vida — e se envolviam em um número maior de atividades que levavam à felicidade, tais como expressar sua gratidão aos colegas ou praticar atividades voluntárias.
A curiosidade — aquele estado pulsante e ávido do não-saber — é fundamentalmente um estado de ansiedade. Quando, por exemplo, o psicólogo Paul Silvia mostrou aos participantes de uma pesquisa uma série de pinturas, as imagens tranquilas de Claude Monet e Claude Lorrain evocaram sentimentos felizes, enquanto as obras misteriosas e inquietantes de Egon Schiele e Francisco Goya causaram curiosidade.
Ao que parece, a curiosidade consiste basicamente em explorar. Pessoas curiosas em geral entendem que, apesar de não ser fácil se sentir desconfortável e vulnerável, este é o caminho para se tornar mais forte e sábio. Na verdade, um olhar aprofundado no estudo de Kashdan e Steger sugere que pessoas curiosas investem em atividades que lhe causam desconforto, pois estas atuam como um trampolim para estados psicológicos mais elevados.
É claro que existem diversas circunstâncias na vida em que a melhor maneira de aumentar seu grau de satisfação é simplesmente fazer o que te faz bem, como tocar sua música favorita numa jukebox ou fazer planos para visitar seu melhor amigo. Mas, de vez em quando, vale a pena buscar uma nova experiência, mais complicada, incerta e até mesmo desgastante — seja finalmente fazer aquela aula de caratê pela primeira vez ou ceder a sua casa para a exibição do filme de arte de um colega. As pessoas mais felizes optam pelas duas vias e assim se beneficiam de ambas.

Claro, ficar de olho nos detalhes pode ajudar quando se trata de navegar o complexo universo social de colegas e namorados — e é algo que as pessoas menos alegres tendem a fazer. Na verdade, o psicólogo da Universidade Virginia Commonwealth, Paul Andrews, argumenta que a depressão é, na verdade, uma questão de adaptação. Pessoas depressivas, segundo a lógica, tendem a refletir e processar mais suas experiências do que as outras — e, por consequência, ter mais insights sobre si mesmo ou sobre a condição humana —, embora paguem um preço emocional por isso. Um pouco de atenção aos detalhes ajuda a avaliar o universo social de maneira mais realista.
No entanto, muita atenção aos detalhes pode interferir no nosso funcionamento cotidiano, como dizem as pesquisas realizadas pela psicóloga Kat Harkness, da Queen’s University. Em seu estudo, ela mostra que as pessoas deprimidas tendem a notar mudanças nas expressões faciais dos outros a cada minuto. Já as pessoas felizes tendem a ignorar tais mudanças repentinas — um ar de aborrecimento, um sorriso sarcástico. Você provavelmente conhece tal fenômeno das interações com seu parceiro. Quando estamos de mau humor, notamos pequenas mudanças de expressão que geralmente surgem de uma briga (“Eu vi você virar os olhos pra mim! Por que você fez isso?!”), mas quando estamos de bom humor, passamos por cima desses detalhes (“Você me provoca, mas eu sei que no fundo você ama estar perto de mim”). As pessoas mais felizes têm uma proteção emocional natural contra a energia desgastante dos pequenos detalhes.
Do mesmo modo, as pessoas mais felizes não dão tanta importância para o seu desempenho. Ao rever a literatura de pesquisa de Oishi e seus colegas, nota-se que as pessoas mais felizes — cujas notas foram 9 ou 10 no quesito satisfação com a vida — tendem a ter desempenhos piores do que pessoas medianamente felizes quando se trata de notas, frequência em aulas e salários. Em resumo, elas se preocupam menos com o seu desempenho; acreditam que vale a pena sacrificar um certo grau de realização para não ter que se preocuparem com coisas pequenas.
De fato, tal apoio alivia as pancadas difíceis da vida e ajuda a vítima a superá-las. Ainda assim, novas pesquisas revelam uma ideia menos intuitiva sobre amizades: as pessoas mais felizes são aquelas que estão presentes nos sucessos dos amigos e cujas realizações são comemoradas por eles.
Tal ideia é reforçada pela psicóloga Shelly Gable, da Universidade da Califórnia, em Santa Bárbara. Uma pesquisa realizada por ela e alguns colegas revelou que quando parceiros românticos falham em dar importância ao sucesso do outro, o casal tem mais chances de se separar. Em contrapartida, quando os parceiros comemoram as realizações uns dos outros, eles tendem a ficar mais satisfeitos e compromissados com o relacionamento, desfrutando de mais amor e felicidade.
No entanto, fora do nosso relacionamento principal, por que capitalizar o sucesso dos outros nos faria mais feliz? Por que devemos apoiar aquele amigo sortudo, ouvindo todos os detalhes de mais uma de suas conquistas sexuais quando nós mesmos passamos muitas noites de sexta-feira lendo gibi? Primeiramente, ele precisa de você, de verdade. O processo de conversar sobre uma experiência positiva com alguém que escuta atentamente muda, de fato, a memória daquele evento — dessa forma, depois de falar sobre a sua experiência, seu amigo vai se lembrar daquela noite com a modelo de maneira ainda mais positiva do que ela foi realmente, e vai ser mais fácil para ele relembrar deste encontro alguns anos depois, quando ela der o fora nele. Mas igualdade é importante, e você também pode pegar uma carona na positividade do seu amigo. Assim como nós nos sentimos mais felizes quando compramos presentes ou doamos dinheiro para caridade em vez de gastarmos com nós mesmos, nos sentimos mais felizes ao ouvir os relatos de sucesso de nossos amigos.
Na vida, existem muitas pessoas esperando uma oportunidade para mostrar seu heroísmo. Difícil mesmo é encontrar pessoas que realmente conseguem compartilhar a alegria e realização dos outros sem sentir inveja. Assim, mandar flores para uma amiga que está se recuperando de uma cirurgia pode ser generoso da sua parte, porém oferecer o mesmo buquê quando ela se formar em Medicina ou ficar noiva gera mais satisfação para ela — e principalmente para você.

A habilidade de mudar o estado mental de acordo com a circunstância é um aspecto fundamental para o bem-estar. George Bonanno, psicólogo da Columbia University, descobriu que, após o 11 de Setembro, as pessoas mais flexíveis que moravam em Nova York quando os ataques aconteceram — aquelas que ocasionalmente sentiam raiva, mas também escondiam sua emoção quando necessário — se recuperaram mais rápido e desfrutaram de melhor saúde mental do que as que não souberam se adaptar.
Oportunidades para reagir de maneira flexível estão em toda parte: uma recém-casada que acaba de descobrir que é infértil talvez esconda sua desesperança de sua mãe, mas se abra com a amiga; pessoas que passaram por algum trauma talvez expressem sua raiva para outras que compartilham do mesmo sentimento, mas a esconda de amigos. O que nos permite obter melhores resultados em diferentes situações é a capacidade de tolerar o desconforto causado pela mudança de estado de espírito de acordo com nossa companhia e suas atitudes.
Aprender a lidar com o desconforto emocional é algo que se faz aos poucos. Da próxima vez em que você tiver um desentendimento com alguém, em vez de beber uma dose de uísque, tente simplesmente tolerar aquele sentimento por alguns minutos. Com o passar do tempo, sua capacidade de tolerar emoções negativas vai aumentar.

Ao tentar descobrir como as pessoas equilibram prazer e objetivo, Michael Steger e seus colegas da Colorado State mostraram que o ato de tentar compreender nosso mundo é o que geralmente nos desvia de nossa felicidade. Afinal, esta é uma missão carregada de tensão, incerteza, complexidade, momentos de intriga e agitação, e conflitos entre o desejo de se sentir bem e a vontade de progredir em direção ao que mais valorizamos. Ainda assim, no geral, as pessoas mais felizes tendem a sacrificar mais os prazeres a curto prazo quando existe uma boa oportunidade de progredir em direção ao que elas desejam ser na vida.
Uma pesquisa realizada pelo neurocientista Richard Davidson, da Universidade de Wisconsin, revelou que progredir em direção à realização de nossos objetivos nos faz sentirmos mais envolvidos e nos ajuda a tolerar sentimentos negativos que podem surgir neste percurso.
Ninguém diz que ter um objetivo na vida é fácil ou que seja uma tarefa simples, mas pensar nas atividades gratificantes e significativas que você fez na semana passada, no que você é bom e nas experiências das quais você não abre mão pode ajudar. Observe também as situações em que suas respostas refletem aquilo que você acha que devia dizer em vez daquilo em que realmente acredita. Por exemplo, ser pai não significa que o tempo que você passa com seus filhos é a parte mais energizante e significativa da sua vida — e é importante aceitar isso. As pessoas mais felizes conseguem combinar aquilo que mais gostam com uma vida de objetivos e satisfação.