Por que algumas pessoas criam memórias falsas?

Os cientistas chamam isso de confabulação e existem diversas variáveis para ela acontecer

Mesmo quem tem um cérebro saudável pode ter memórias falsas (Foto: Divulgação)MESMO QUEM TEM UM CÉREBRO SAUDÁVEL PODE TER MEMÓRIAS FALSAS (FOTO: DIVULGAÇÃO)
Ojeito como o cérebro formula uma memória é bem parecido com a maneira como ele cria um sonho vívido: neurônios disparam e diversos pedacinhos de informação codificadas são reunidas.
Apesar de o cérebro nos dar a habilidade de checar os fatos, nem sempre conseguimos distinguir o que é fato e o que é ficção. Ao contrário dos mentirosos, que sabem que o que estão falando não é real, as pessoas que possuem memórias falsas realmente acreditam nelas. Os cientistas chamam essa falha de memória de confabulação.
De acordo com William Hirstein, professor de filosofia da Faculdade de Emhurst, nos Estados Unidos, a estrutura do cérebro de uma pessoa pode revelar se ela confabula e o motivo disso.
Em geral, os pesquisadores acreditam que a confabulação pode estar ligada com danos no lobo frontal do cérebro. Problemas nessa área dificultam a recordação e verificação de informações, fazendo com que as pessoas que passam por isso não consigam averiguar a realidade de suas memórias.
No entanto, quem tem um cérebro completamente saudável também corre o risco de confabular. Como somos criaturas sociais, aprendemos a dar as “respostas certas”, aquilo que, de alguma forma, trará aprovação exterior. A confabulação pode começar a partir dessa necessidade de manter uma reputação positiva.
Várias pesquisas apontam que as memórias confabulatórias tendem a ser positivas. Um estudo realizado com 10 pacientes amnésicos do Hospital St. Thomas, na Inglaterra, mostrou que, quanto mais depressivo o paciente, mais positivo era o conteúdo de sua confabulação. “Geralmente quem confabula tende a falsificar as coisas de uma forma positiva para si mesmo”, diz Hirsten.
Ainda não existe uma cura para essa ~criação de memórias falsas~ mas, segundo Hirstein, quem percebe que confabula e não tem nenhum dano cerebral significativo pode aprender a compensar essa falha.
Quem sabe que tem uma memória ruim costuma checar a informação automaticamente antes responder. Esse treino, quando feito regularmente, pode ajudar o cérebro a ser mais eficiente ao procurar as memórias e trazer à tona as que são mais precisas.

Caminhar na natureza faz bem para o cérebro, mostra pesquisa

A vida nas cidades grandes deixa as pessoas com maior propensão a doenças mentais e ansiedade

O grupo que passeou no parque se mostrou muito mais tranquilo e com menor atividade no córtex pré-frontal  (Foto: Flickr/Kuba Zawadzki)O GRUPO QUE PASSEOU NO PARQUE SE MOSTROU MUITO MAIS TRANQUILO E COM MENOR ATIVIDADE NO CÓRTEX PRÉ-FRONTAL (FOTO: FLICKR/KUBA ZAWADZKI)
Vários estudos apontam que pessoas que moram nos centros de grandes cidades possuem maior tendência a ansiedade e doenças mentais do que quem mora mais perto da natureza.
Gregory Bratman, aluno de graduação da Universidade de Stanford, nos Estados Unidos, decidiu realizar um experimento mais profundo sobre o assunto.
O estudante e sua equipe selecionaram 38 pessoas que moram em cidades movimentadas para o projeto. Em um primeiro momento, eles verificaram o fluxo do sangue no córtex pré-frontal do cérebro dos participantes utilizando tomografia. Eles consideram que quanto mais sangue, mais atividades o cérebro realiza. Além disso, os voluntários também responderam um questionário para avaliar seu nível de contentamento. 
Os participantes foram divididos em dois grupos. O primeiro foi instruído a andar em uma parte silenciosa e arborizada do campus de Stanford, enquanto o segundo teve que andar na parte mais agitada do centro da cidade de Palo Alto, na Califórnia. Eles não podiam levar companhia ou ouvir música durante essas caminhadas.
Após uma hora e meia de caminhada, os voluntários mais uma vez passaram pela tomografia e responderam os questionários. De acordo com os resultados, aqueles que andaram no centro ficaram mais agitados, com bastante fluxo de sangue no cortex pré-frontal.
Já os participantes que passearam pelo caminho arborizado mostraram mais positividade em seus questionários e tinham menos sangue circulando no cortex pré-frontal.
De acordo com Bratman, diversos aspectos da pesquisa ainda precisam ser aprimorados, mas que, por enquanto, “uma caminhada até o parque mais próximo pode te ajudar a espairecer”.

Em busca do cérebro imortal

Nunca a ciência esteve tão voltada a mapear completamente os caminhos da mente. Saiba por que essa empreitada pode fazer com que a nossa consciência sobreviva à morte do corpo

Imagens como essa, feitas pelo Human Connectome Project, estão ajudando a digitalizar o cérebro (Foto: Divulgação)” class=”img-responsive” src=”http://s2.glbimg.com/0-b476vXjny2VDIhIfGrxIZY42U=/e.glbimg.com/og/ed/f/original/2014/03/27/273_dossie_01.jpg” style=”border: 0px; box-sizing: border-box; display: block; height: auto; max-width: 100%; vertical-align: middle; width: 764.891px;” title=”AQUI TEM 1,1 BILHÃO DE TERABYTES > Imagens como essa, feitas pelo Human Connectome Project, estão ajudando a digitalizar o cérebro (Foto: Divulgação)” />AQUI TEM 1,1 BILHÃO DE TERABYTES > IMAGENS COMO ESSA, FEITAS PELO HUMAN CONNECTOME PROJECT, ESTÃO AJUDANDO A DIGITALIZAR O CÉREBRO (FOTO: DIVULGAÇÃO)
Um bisturi com um diamante na ponta fatia o cérebro de um rato. Com 15 nanômetros, os pedaços precisariam ser mil vezes mais grossos para chegar à espessura de um fio de cabelo. Coloridos com emulsões químicas e colocados num ambiente a vácuo dentro de um microscópio eletrônico, são fotografados em altíssima resolução. O resultado do trabalho do Instituto Paul Allen, em Seattle, são imagens que podem representar os primeiros passos de uma revolução. O mapeamento cerebral, com nível inédito de detalhes, pode conduzir a um futuro em que sejamos capazes de transformar as conexões mentais em dados, com implicações quase inacreditáveis. No momento em que for possível fazer o upload de todo o conteúdo do nosso cérebro, poderíamos transmitir esses dados para outros corpos, não necessariamente biológicos.
É natural que a ideia soe como ficção científica. Tornar a nossa mente imortal é tema caro a grandes autores do gênero, como Isaac Asimov, Arthur C. Clarke e Frederik Pohl. A obra mais recente sobre o assunto é Trancendence, filme a ser lançado no início de maio no qual Johnny Depp interpreta um pesquisador capaz de transferir a mente para outros suportes. A diferença, agora, é que nunca a ciência esteve tão voltada a decifrar o cérebro e transformá-lo em dados.
Em 2013, o presidente americano Barack Obama anunciou a disposição de investir US$ 3 bilhões na iniciativa BRAIN, que pretende mapear todos os nossos neurônios em dez anos. A Comissão Europeia, na mesma época, destinou 1,19 bilhão de euros para criar uma simulação computadorizada do cérebro. Paul Allen, cofundador da Microsoft, já colocou meio bilhão de dólares em seu instituto voltado a mapear a mente humana. Isso sem falar no magnata russo Dmitry Itskov, que anunciou seu projeto de transferir a consciência humana para uma interface robótica até 2045.
A escolha do ano não é aleatória. É quando, segundo uma previsão do pioneiro da inteligência artificial e diretor de engenharia do Google, Ray Kurzweill, a humanidade vai alcançar a imortalidade fazendo o upload da mente. Itskov abraçou a polêmica meta e criou a Iniciativa 2045, que faz reuniões periódicas com especialistas em busca desse objetivo. O projeto criou um cronograma (ao lado), visando a atingir os principais passos necessários a uma transferência da mente: a) mapear o cérebro em detalhes; b) transmitir e dar sentido às informações; e c) construir um suporte que possa receber os dados, o que pode ser um avatar robótico ou um software. Há pesquisadores trabalhando, neste instante, em todas essas frentes.
O neurocientista Arthur Toga comanda um dos principais laboratórios a mapear as conexões entre os neurônios (Foto: Divulgação)O NEUROCIENTISTA ARTHUR TOGA COMANDA UM DOS PRINCIPAIS LABORATÓRIOS A MAPEAR AS CONEXÕES ENTRE OS NEURÔNIOS (FOTO: DIVULGAÇÃO)
STREET VIEW DA MENTE
A ideia de que um detalhado mapa cerebral pode conter dados sobre a nossa personalidade parte da teoria, bem aceita entre neurocientistas, de que ela está impressa no cérebro. “Nossa consciência, nossa memória, nossas concepções são muito dependentes de nossas conexões”, afirma o Ph.D em neurologia Arthur Toga, um dos principais pesquisadores do mundo na área. Há muitas evidências sustentando essa visão. Uma série de pesquisas têm observado que, quando passamos por alguma experiência, nossa massa cinzenta reage fortalecendo ou enfraquecendo ligações entre os neurônios. São nessas conexões, fruto da interação do meio ambiente com nosso genoma, que estariam as informações sobre quem somos. Na verdade, para eles, nós somos as nossas conexões.
O interesse por esses dados levou a comunidade científica a se inspirar no Projeto Genoma para mapear em alta resolução toda a coleção de conexões entre os neurônios e caminhos cerebrais, que passou a ser chamada de connectome. O  Humam Connectome Project foi lançado em 2009 pela NIH, a agência de pesquisa de saúde do governo dos EUA. Ele tem como meta entender como os 100 bilhões de neurônios humanos fazem todas as 100 trilhões de conexões possíveis entre eles, em que momentos, de que forma e com quais objetivos. Para isso, está recorrendo às melhores técnicas de imagem para mapear cérebros de 1.200 adultos. Os dados são colocados on-line para serem analisados por neurocientistas em laboratórios do mundo todo.
“Estamos criando um mapa de região, com a geografia local, as estradas. Conhecemos as pistas principais, mas não as vias secundárias”, afirma Toga, líder do projeto e chefe do principal laboratório de imagem envolvido na empreitada, o da Universidade do Sul da Califórnia. Uma nova geração de equipamentos de ressonância cerebral consegue chegar a um detalhamento de um milímetro cúbico de cérebro. Parece muito, mas dentro desse milímetro cúbico podem caber dezenas de milhares de neurônios com todas as suas conexões. Chegar mais perto, por enquanto, só com técnicas invasivas, o que não dá para fazer com pessoas (ao menos não com as vivas).
É por isso que o instituto de Paul Allen fatia com precisão uma região de cérebros de ratos. Se para gerarmos agora imagens com nível de detalhamento de neurônios para um cérebro humano, seriam necessários 1,1 bilhão de terabytes para guardá-las, estima o cientista  do MIT Sebastian Seung. Pra se ter uma ideia, isso é mais ou menos o tráfego total de dados da internet em um ano, de acordo com a companhia Cisco.
Mapear o cérebro de ratos, portanto, é uma forma de driblar esses obstáculos.  “Existem grandes diferenças entre os cérebros de ratos e de humanos, mas os processos que fazem um rato se esconder ao ver a foto de um gato podem nos ensinar muito sobre como nosso cérebro reage a estímulos”, diz a bióloga Hongkui Zeng, líder do programa de pesquisa e desenvolvimento da entidade.
Antes do estudo com ratos, pesquisadores do instituto fizeram um mapeamento dos mecanismos bioquímicos  por trás do funcionamento da mente usando ressonância magnética em cérebros de seis pessoas mortas. Descobriram que 84% de nossos genes de todo o nosso DNA se tornam ativos em alguma parte do cérebro, o que gerou montanhas de dados ainda sendo analisadas. 
Há uma série de outras iniciativas complementares dentro do escopo do financiamento do programa BRAIN. De técnicas para melhor preservação do cérebro, como o da Brain Preservation Foundation, a análises sobre o formato retilíneo de caminhos neurais descoberto no Centro Martinos de Imageamento Biomédio, em Boston.
Apesar do aumento exponencial do banco de dados sobre nossa mente, especialistas estimam que um connectome completo ainda deve demorar pelo menos uma década. “A tecnologia ainda precisa avançar muito. Não veremos nenhum mapeamento definitivo em menos de 15 anos”, afirma o neurocientista Randal Koene. Depois começa a etapa difícil de verdade: entender como essas informações se relacionam e como usá-las.
Seção de matéria branca do cérebro vista em imagem do Human Connectome Project (Foto: Cortesia do Laboratório de Neuroimagem e do Centro Martinos de Imageamento Biomédico, do Human Connectome Project - www.conectomeproject.org)SEÇÃO DE MATÉRIA BRANCA DO CÉREBRO VISTA EM IMAGEM DO HUMAN CONNECTOME PROJECT (FOTO: CORTESIA DO LABORATÓRIO DE NEUROIMAGEM E DO CENTRO MARTINOS DE IMAGEAMENTO BIOMÉDICO, DO HUMAN CONNECTOME PROJECT – WWW.CONECTOMEPROJECT.ORG)
DO CÉREBRO PARA O MUNDO
São 10 mil laboratórios de neurociências no mundo trabalhando, neste momento, em pesquisas relacionadas ao mapeamento cerebral e às conexões entre mente e máquina. A estimativa é do neurofisiologista russo Mikhail Lebedev, especialista em interfaces cérebro-máquina e pesquisador da Universidade Duke.
Não é só por conta de magnatas preocupados com a imortalidade que o dinheiro corre para esses centros de pesquisa. Entender melhor o cérebro deve ajudar no combate de doenças degeneratias como Alzheimer e Parkinson.
Pesquisas dedicadas a solucionar limitações físicas também ajudam a avançar a tecnologia que poderá ser na transferência da mente a avatares com a capacidade de alojar a mente. É o caso de toda a linha de trabalho do brasileiro Miguel Nicolelis. Seu exoesqueleto, que responde a impulsos cerebrais, está na linha de frente da comunicação entre máquinas e cérebro. Os estudos já permitiram, entre outras façanhas, que o cérebro de um macaco movimentasse dois braços mecânicos simultaneamente e devem fazer um tetraplégico dar o pontapé inicial na Copa do Mundo no Brasil.
Outro dos pioneiros na área, John Donoghue, da Universidade Brow, desenvolveu uma interface de leitura de impulsos cerebrais que permitiu ao tetraplégico Matthew Nagle mover um cursor de computador, mudar os canais da TV e movimentar os dados de uma mão artificial apenas com a força do pensamento. Próteses eletrônicas de mãos, braços, pernas e pés cada vez mais sofisticadas também têm colaborado para decifrar os caminhos de comunicação do cérebro.
Este, aliás, é outro dos pontos cruciais. Para que a interação com as máquinas seja viável, precisaremos de processadores que entendam a linguagem da mente. Isso significa simular nossos neurônios em forma de inteligência artificial. O Projeto Synapse, da IBM, deu um belo passo neste sentido: em 2011, lançou dois chips neurossinápticos, cujo funcionamento imita o do cérebro.
Compostos por 256 “neurônios eletrônicos”, eles não se limitam a processar dados da maneira como foram previamente programados, mas aprendem com os resultados. O objetivo é criar um sistema completo e ligá-lo a sensores capazes de interagir com o ambiente em volta. Com base nas informações dos sensores e nas experiências aprendidas do passado, o sistema passará a adaptar seu comportamento.
Para chegar a isso, a estrutura precisará de 10 bilhões de “neurônios eletrônicos”, consumir menos de um quilowatt de energia e ocupar um volume menor do que dois litros. O segundo estágio do projeto conta com apoio do governo americano e parcerias com quatro grandes universidades: Columbia, Cornell, UCLA e Wisconsin.
A chamada “reengenharia do cérebro” também é buscada ainda por um grupo de bioengenheiros da Universidade de Stanford, que já criou protótipos de chips não digitais que simulam o funcionamento dos neurônios pelo projeto Blue Brain do Instituto de Tecnologia de Lausanne. Este conseguiu conectar 10 mil neurônios virtuais por  meio de cabos em um formato que imita a rede de neurônios.
Nesse caminho, o projeto mais avançado de estruturas físicas é do neurocientista Theodore Berger, da Universidade do Sul da Califórnia. Ele criou uma prótese do hipocampo, área do cérebro ligada à memória. Testada em ratos e macacos, no último ano, o chip conseguiu substituir neurônios na função de guardar memórias.
Os testes com os humanos devem começar no ano que vem. Se o chip der resultado, num primeiro momento deve substituir neurônios de pessoas com Alzheimer. Num segundo, pode ser o  pontapé inicial da substituição de partes do cérebro com componentes eletrônicos, a caminho de uma integração mais próxima entre a parte orgânica e eletrônica.
Esse tipo de estrutura física seria essencial para que uma eventual mente transformada em dados pudesse “habitar” a nova casa. Mas tão essencial quanto os chips neuronais seriam as simulações de inteligência artificial para tentar reproduzir a atuação da mente dentro de um suporte eletrônico.
Nesse sentido, há projetos ambiciosos usando supercomputadores. Um deles é o Human Brain Project, agora bancado pela União Europeia. O coordenador do projeto, Henry Markram, apresentou, em 2011, a versão simulada do funcionamento de 1 milhão de neurônios de ratos. Seu objetivo é fazer uma simulação parecida do funcionamento completo do cérebro de um ser humano.
Markram tem um ponto de partida promissor: entre 1995 e 2005, ele mapeou o que ele chama de “coluna neocortical”, um módulo de dois milímetros de altura e meio milímetro de diâmetro, que contém 60 mil neurônios. Essa estrutura se repete por todo o sistema nervoso — entendê-la melhor vai permitir desenvolver equipamentos que a imitem, facilitando a criação de cérebros eletrônicos capazes de receber a mente humana transformada em dados.
No limite, a união entre as interfaces físicas e as simulações digitais poderá dar em um novo cérebro, feito de silício. “O caminho passa pela nanotecnologia. Nanorrobôs e chips, formando um sistema, poderão substituir o cérebro biológico”, diz Ioan Opris, pesquisador que está desenvolvendo microcircuitos para substituir o córtex cerebral.
Aparelho avançado de imagem Siemens Connectome Scanner é entregue ao Human Connectome Project (Foto: Divulgação)APARELHO AVANÇADO DE IMAGEM SIEMENS CONNECTOME SCANNER É ENTREGUE AO HUMAN CONNECTOME PROJECT (FOTO: DIVULGAÇÃO)
SUA MENTE VIRA LUZ
Quando for possível mapear e traduzir todo o cérebro e existirem formas de fazê-lo conversar na mesma língua das máquinas, o upload da mente vai estar muito próximo. Interessado em acelerar as condições para fazer dele uma realidade, Randal Koene lançou em 2010 a entidade Carbon Copies.
Seu objetivo é criar mentes que se mantenham ativas independentemente do meio — seja um corpo biológico, um avatar físico, um HD de computador ou um avatar holográfico. “Estamos pesquisando formas de fazer a transferência dos dados. Nosso objetivo é desenvolver formatos diferentes, que garantam cópias rápidas e sem erros”, afirma Koene.
Neste momento, a Carbon Copies avalia as vantagens e desvantagens de seis formatos diferentes de arquivo.
“O próprio fato de a questão da imortalidade estar agora na mão de engenheiros, e não mais apenas de filósofos ou teólogos, já representa que este agora é um problema muito mais palpável”, afirma o neurofisiologista Mikhail Lebedev. “O mais importante é acelerar o desenvolvimento de todas as frentes de pesquisa necessárias para darmos este salto evolutivo”, diz o filósofo Anders Sandberg, professor do Future of Humanity Institute e um dos pesquisadores participantes da Iniciativa 2045. “É um bom momento para se estudar neurologia. Este é o campo de onde vão surgir as pesquisas e as invenções mais impactantes para nossa espécie”.
Mas, para que a imortalidade cerebral se torne viável, ainda existem muitos obstáculos a superar. Nosso cérebro pode realizar 36,8 quatrilhões de operações por segundo, mais do que o dobro do que o supercomputador mais potente hoje. Além disso, não basta alcançar a mesma capacidade de processamento, é preciso reproduzir exatamente o funcionamento do cérebro humano, uma tarefa que depende de avanços grandiosos em várias áreas: neurologia, ciência da computação, fotografia em alta resolução, nanotecnologia, genética, biotecnologia, engenharia, filosofia, psicologia… São tarefas para muitas décadas, possivelmente além de 2045.
As limitações não incomodam os pesquisadores. “Devemos demorar mais uns bons anos para decifrar o cérebro, mas estou certo de que conseguiremos. Quanto a transferir a mente, os desafios de engenharia ainda são muito grandes. Deve demorar mais que 2045”, diz Arthur Toga. Assim como os arquitetos medievais, que projetavam catedrais que nunca veriam prontas, eles sabem que estão dando os primeiros passos rumo a um futuro viável apenas dentro de algumas gerações. “Não seremos capazes de usar os avatares carregados com nossas mentes”, afirma Lebedev. “Mas estamos abrindo a trilha para que a próxima geração pavimente o caminho e a seguinte viva num mundo totalmente novo”.
PROJEÇÃO | A CAMINHO DO AVATAR > Conheça as metas da Iniciativa 2045 até chegar ao upload da mente
2015-2020 > Surgimento de uma cópia robótica do corpo, remotamente controlada por interfaces cérebro-máquina.
EM QUE PÉ ESTÁ:  O mais perto de um corpo robótico controlado pela mente é o exoesqueleto de Miguel Nicolelis que deve ser lançado durante a Copa do Mundo.
2020-2025 > Avatar para o qual o cérebro é transplantado no fim da vida.
EM QUE PÉ ESTÁ: Já existe tecnologia para ler comandos cerebrais e movimentar próteses robóticas de mãos, braços e pés, mas ainda não com precisão para um avatar.
2030-2035 > Avatar com inteligência artificial, para o qual a personalidade de uma pessoa é transferida no fim da vida.
EM QUE PÉ ESTÁ: O primeiro passo para digitalizar a personalidade é decodificar as conexões neuronais, o que está em curso e deve demorar pelo menos dez anos.
2040-2045 > A consciência sobreviverá sem corpo robótico ou orgânico.
EM QUE PÉ ESTÁ: O projeto Carbon Copies pretende simular mentes independentes de substratos, mas ainda não há nada de concreto.
FUTUROLOGIA | O QUE PODE ACONTECER COM O UPLOAD DA MENTE? > GALILEU pediu a cientistas e filósofos que previssem possíveis implicações da digitalização do cérebro
TURBINADO > Nossos neurônios trocam sinais a, no máximo, 150 metros por segundo. Nada mal, mas um computador pode trocar bits à velocidade da luz, 2 mil vezes mais rápido. Transplantada para um cérebro artificial, a mente poderia ter um upgrade e solucionar questões complexas, como a unificação da teoria da relatividade com a física quântica.
MOCHILEIRO DAS GALÁXIAS > Se a mente virar dados, um feixe de laser poderia transportá-la na velocidade da luz para mundos distantes. “Embora possa demorar séculos para o feixe chegar ao destino, do ponto de vista da mente sendo transmitida, a viagem seria instantânea”, escreve o físico teórico Michio Kaku em seu livro recém-lançado The Future of the Mind. Naves também poderiam transportar avatares robóticos sem carregar peso extra, como alimentos e equipamentos necessários à sobrevivência do corpo orgânico.
CLONES > Um cérebro que virou dados pode ser transferido, copiado ou alterado. Diferentes versões de você poderiam ocupar vários avatares, que seriam mentes idênticas no momento da divisão. Nossa noção de individualidade viraria pó.
SINTA COMO EU SINTO > Em vez de tentar descrever uma emoção, você passaria exatamente aquele estado mental a uma outra mente conectada à mesma rede. O papel da arte enquanto transmissora de emoções teria de ser ressignificado.
CRISE DE IDENTIDADE > Estudos mostram que pessoas forçadas ao isolamento sofrem perda de memória, depressão e falta de capacidade de comunicação. “O upload da mente gerará a perda de nossos sentidos, de nossas sensações. E isso pode levar a uma forte depressão”, afirma o filósofo da mente João de Fernandes Teixeira. É possível que, com o tempo, ao menos alguns suportem a mudança e comecem a enxergar no novo corpo uma casa definitiva.
ARTIGO | JOÃO DE FERNANDES TEIXEIRA >
“Não queremos uma vida infinita”
Filósofo da mente e professor da Universidade Federal de São Carlos analisa as perspectivas abertas pela neurociência
“A vida pode ser insuportavelmente longa”, disse certa vez o poeta americano T.S. Eliot. De fato, quando conversamos com pessoas bem idosas, muitas deixam entrever seu cansaço com a vida, que resulta do acúmulo de experiências dolorosas e de tristezas causadas por perdas de todo tipo. A morte pode ser uma porta de saída. Mas, se formos imortais, o descanso fica inviável. Creio que a aspiração normal dos seres humanos é uma vida longa e com saúde. Mas não infinita.
Nossa mente está se adaptando à interação com dispositivos inteligentes, mas não conscientes. Isso está mudando o que concebemos como inteligência. Aliás, ela já mudou a partir do momento em que começamos a interagir com computadores, mesmo os atuais. Toda nossa cultura foi adaptada à arquitetura da internet e das redes sociais. Em vez de as máquinas estarem se adaptando a nós, ocorre o inverso: estamos nos adaptando, cada vez mais, a elas.
Essa nova realidade traz um grande desafio ético: a perda da identidade pessoal. No mundo atual, já convivemos com as redes sociais que, embora não conectem diretamente o cérebro das pessoas, já criaram uma enorme rede na qual elas se identificam por meio de poucas características pessoais, cheias de falsas identidades e com valor excessivo dado à quantidade de amigos e seguidores. Albert Einstein já dizia: “O dia em que a tecnologia ultrapassar a interatividade humana, o mundo terá uma geração de idiotas”.
As pessoas se esquecem que o importante não é a rede, não é estar conectado, mas as pessoas que estão nessa rede, quem são elas e por que se conectam. Imagino que, com um passo a mais — a ligação direta entre cérebros —, haverá uma destruição completa da individualidade e uma das suas principais características: a privacidade.

“Os avanços tecnológicos vão mudar a economia global nos próximos anos”

Em entrevista ao site Look ahead, Espen Barth Eide, diretor do Fórum Econômico Mundial, fala sobre como conectividade dará forma a 2016

conetictividade (Foto: Thinkstock)CONETICTIVIDADE (FOTO: THINKSTOCK)
De acordos comerciais tênues à migração em massa, passando por energia e tecnologia. Em entrevista ao site Look ahead,Espen Barth Eide, diretor do Fórum Econômico Mundial, afirma que entender a conectividade básica pode ser a chave para compreender suas implicações e resolver os problemas inerentes a ela.
A Parceria Transpacífico e a Parceria Transatlântica de Comércio e Investimento estão sendo abaladas por polêmicas, incertezas e preocupações com a transparência no processo de negociações. Qual é a sua opinião sobre essas negociações e como elas podem afetar a concorrência geoestratégica no futuro?
Espen Barth Eide: Há sempre a questão de saber se os acordos regionais retiram influência do sistema global. Por enquanto, eles provavelmente serão úteis regionalmente, desde que haja uma visão compartilhada de expandi-los em termos mundiais. Esta é uma distinção importante a se fazer, porque, se desistirmos do sistema global, concordaremos com um número de regimes regionais em que a internacionalização continua, mas não a globalização. Em outras palavras, o conceito de uma economia global com serviços de comércio aberto a todos pode ser subjugado por blocos regionais. Ainda assim, esse tipo de desenvolvimento é positivo e pode apontar o caminho para melhorar os processos, de forma que, eventualmente, eles possam ser replicados em nível mundial.
Como os eventos mundiais que dão forma a estas e a outras políticas transregionais se farão sentir de 2016 em diante?
Espen Barth Eide: É importante compreender que estes acordos não são apenas sobre políticas comerciais, mas sobre postura política num momento em que o quadro geopolítico como um todo é complicado. Quando a Guerra Fria acabou, junto com ela se foi a ideia de competição entre os países fortes, e inauguramos uma era de fragilidade e colapso do Estado. Ao longo dos últimos anos, temos visto um retorno à competição entre os principais players, como os EUA, a China e a Rússia. Não é exatamente a Guerra Fria, mas se assemelha a ela pelo fato de termos grandes Estados que realmente funcionam, e de que cada um possui visões muito diferentes de como o mundo dever ser organizado.
Veja o conflito na Síria, que, embora tenha começado naquele país, tornou-se regional, à medida que diferentes partes, como o Irã, começaram a competir pela influência na região. Agora, adicionamos a Rússia e os Estados Unidos a essa mistura. Tanto a Rússia quanto os EUA estão competindo e cooperando porque existe o objetivo comum de reduzir a influência do Estado Islâmico, mas cada um tem metas opostas. A competição global e o caos regional se reúnem de uma forma dramática na Síria, mas também existem conflitos híbridos envolvendo o que costumávamos associar a entidades não estatais, como grupos islâmicos que se assemelham a Estados. O epicentro está no Oriente Médio, mas há ramificações em outros lugares.
Esses conflitos são dramáticos por si só, mas também apontam para uma implicação secundária, de que o poder dos Estados mais influentes foi reduzido. Receio que estamos apenas vendo o início disto. Um aspecto positivo, porém, é que os principais players podem sentir a necessidade de começar a cooperar entre si. Estamos vendo isso acontecer no acordo com o Irã: quando querem, eles ainda são capazes de fazer algo juntos.
Será que o conflito na Síria reflete uma mudança no equilíbrio geoestratégico que você mencionou?
Espen Barth Eide: O que estamos vendo é a ligação de três crises distintas, que se conectaram em pelo menos uma maneira surpreendente. Primeiro, há o drama geopolítico no Iraque, no Iêmen, na Síria e no Norte da África, que só pode ser resolvido com soluções políticas. Mas, no momento, as pessoas estão buscando soluções militares, com nenhum dos lados ganhando ou perdendo. Assim, ele continua. Em segundo lugar, há a crise humanitária, dos refugiados (que já vem acontecendo há alguns anos), em que o número de pessoas em movimento está crescendo exponencialmente. A maioria se mudou para países vizinhos muito generosos, como a Turquia e a Jordânia.
O que aconteceu durante o verão – e que talvez tenha a ver com o envolvimento das grandes potências na Síria – é que algumas pessoas nos campos de refugiados não veem um fim para o conflito. Eles não enxergam nenhum motivo para esperar, porque querem continuar com suas vidas. Isso leva à terceira crise, já existente, que é a de identidade do projeto europeu. Antes, ele tinha uma dimensão Norte-Sul, mas agora é um problema generalizado sobre a capacidade de lidar com a situação de uma forma coletiva. Cada país tem sua própria política e suas diretrizes arraigadas sobre como lidar com o problema. Assim, por causa dos refugiados, a crise política na região do Oriente Médio e Norte da África se levanta para atingir a Europa de uma forma significativa. Não é possível resolver essas crises sem entender que elas estão conectadas.
Como você vê esse tipo de conectividade se desenrolar de 2016 em diante?
Espen Barth Eide: As pessoas tentarão se mudar, se acharem que outros lugares são mais receptivos ou mais fáceis de viver. Não se trata apenas de política e da guerra, mas também da escassez de recursos naturais e do aquecimento global. Em relação às políticas, as consequências de agora, por exemplo, pessoas se mudando, podem ter efeitos ambientais depois, quando os recursos forem reduzidos. Mas nem tudo é sombrio. Acredita-se que os mercados de trabalho nos países que estão recebendo essas pessoas sejam impulsionados. Na preparação para a reunião anual do Fórum Econômico Mundial estamos tentando visualizar o debate sob uma nova luz e explorar como os atores públicos e privados podem gerenciar a crise dos refugiados e tirar algum benefício desse aumento populacional.
Como você prevê a tecnologia influenciando a paisagem geoestratégica em um futuro próximo?
Espen Barth Eide: Ela influencia tudo, é o que chamamos de a quarta Revolução Industrial. Os avanços tecnológicos estão trazendo novas oportunidades e desafios. Além disso, vão mudar a economia global de uma maneira fundamental nos próximos anos. Por exemplo, as ferramentas para a fabricação serão muito diferentes e podem chegar a um nível de automação que anula os argumentos de buscar trabalho pouco remunerado. Isso poderia levar a fabricação de produtos de volta aos países de origem.
Dadas as recentes negociações sobre as mudanças climáticas em Paris, quais são os principais desenvolvimentos energéticos que você espera ver em 2016?
Espen Barth Eide: Na preparação para a conferência do clima em Paris, vimos uma grande onda de compromissos por parte de governos e empresas para tomar medidas decisivas no combate às alterações climáticas. Boa parte do consenso já alcançado por meio de grupos de stakeholders e diferentes indústrias está proporcionando um dinamismo que é um bom prenúncio para a implementação de quaisquer resultados obtidos na reunião.
CEOs de 78 empresas – uma coligação intersetorial apoiada pelo Fórum Econômico Mundial, que inclui os setores bancário, industrial, da construção e energético – fizeram uma “oferta aberta” aos governos para coprojetarem soluções climáticas antes da Conferência da ONU sobre Mudanças Climáticas (COP21), em Paris. Elas incluem: precificação do carbono explícita ou implícita; inovação em fontes de energia alternativas e renováveis, eficiência energética e um fim ao desmatamento; maior divulgação corporativa de riscos de carbono; e que o governo estabeleça metas globais e nacionais de base científica para a redução das emissões globais de gases de efeito estufa.
A chave para uma ação continuada em compromissos como esses é a colaboração entre governo e empresas. As metas climáticas não podem ser alcançadas apenas por um ou outro; a ação coletiva e colaborativa é fundamental para fornecer soluções com rapidez.

Como os algoritmos dominaram o mundo

O que você lê, assiste, pesquisa, como você dirige e até o seu próximo encontro amoroso. Veja como as fórmulas matemáticas tornaram-se parte indissociável do nosso cotidiano e por que devemos nos preocupar com elas

 (Foto: Revista Galileu)
Ojornalista Ken Schwencke, do Los Angeles Times, estava dormindo quando, às 6h25 do dia 17 de março, um terremoto sacudiu a Costa Oeste dos EUA. Com o susto, correu para o computador e descobriu que Quakebot, um algoritmo que ele criou, já havia escrito um texto sobre o assunto. O jornal deu um furo de reportagem noticiando os detalhes do tremor antes de todos os outros e fez a fama do algoritmo, que se conecta automaticamente com o Serviço Geológico dos EUA e escreve pequenas notas com os dados.
Mas, afinal, o que é um algoritmo e por que se fala cada vez mais deles? Na matemática, é todo conjunto de regras e operações para fazer cálculos, realizar tarefas ou solucionar problemas. Vem do sobrenome do matemático persa Mohammed al-Khuwarizmi, o pai da álgebra, que viveu no século 9. “É uma espécie de receita culinária para números”, explica Viktor Mayer-Schönberger, professor na Universidade de Oxford. “Por mais complexo, não passa de uma fórmula seguindo regras predefinidas.”
Com o crescimento rápido do acesso a informações digitais, algoritmos como o Quakebot estão por toda a parte. E não falamos apenas dos mais conhecidos, como o algoritmo de pesquisa do Google, ou os da Amazon, Netflix e Pandora, que recomendam livros, filmes e músicas. Já temos algoritmos que detectam infecções em recém-nascidos, evitam engarrafamentos e negociam ações (milhões delas). Veja a seguir áreas nas quais esses programas já estão trazendo grandes avanços e grandes preocupações.
VEÍCULOS > DOS CORREIOS À F-1
Quem comanda o carro autônomo experimental do Google é um algoritmo. Também são algoritmos por trás dos projetos semelhantes da Mercedes, Toyota e Audi mostrados em janeiro na feira de eletrônicos CES, nos EUA. Carros que, sem motorista, são capazes de fazer trajetos que passam por pedestres, ciclistas e semáforos e não causaam acidentes. Durante a feira, as fabricantes estimaram que ainda leva uma década para vermos modelos assim sendo comercializados. Isso significa que os veículos ainda ficam um bom tempo longe do domínio dos algoritmos, certo? Errado. Esses programas já estão rodando por aí faz tempo, numa via de mão única e sem volta.
Um exemplo é o serviço postal UPS, que entrega 16 milhões de encomendas por dia. Desde 2003, são os algoritmos que definem a rota dos quase 100 mil carros, vans e motos que compõem a frota. “Por ano, economizamos 8,5 milhões de litros de combustível e deixamos de emitir 85 mil toneladas de CO2”, calcula Jack Levis, diretor de Gerência de Processos da UPS. Os algoritmos também ajudam a empresa a prever problemas mecânicos. Sensores instalados nos carros de entrega captam dados como ruídos do veículo que alimentam um sistema de previsão de quando as peças devem falhar. Em vez de fazer manutenção preventiva (o que acabava trocando algumas peças que poderiam durar muito mais), a UPS identifica o momento preciso antes da falha, o que, dizem eles, acaba por economizar milhões.
A Fórmula 1 é outro campo onde os algoritmos aceleram. Simon Williams, sócio-fundador da empresa de dados britância QuantumBlack, defende que uma escuderia campeã precisa de boas fórmulas matemáticas. Sua companhia trabalha desde 2011 calculando em tempo real fatores como desgaste de pneus, janelas de pit-stop e estratégia de todos os pilotos. Esses dados geram gráficos para as equipes sobre o melhor momento de parada, qual pneu colocar e qual estratégia adotar de acordo com todos os fatores.
Seguradoras também já usam sensores acoplados aos carros para alimentar fórmulas que interferem no cálculo do valor do seguro de acordo com o comportamento do condutor (veja acima como funciona). “No final das contas, quem dirige melhor paga menos”, diz Flávio Faggion Jr, diretor da Siscorp, empresa que atua no ramo. O sistema, que cresce na Europa e nos EUA, está chegando ao Brasil numa apólice da companhia Porto Seguro voltada a jovens. Após instalar o rastreador da empresa, o jovem ganha 30% de desconto se dirigir abaixo de 90 km/h e não pegar o carro de madrugada por mais de 5% do tempo.
Num futuro não tão distante, algoritmos podem até evitar congestionamentos, como mostra pesquisa de 2013 do professor Berthold Horn, do Massachusetts Institute of Technology (MIT). Ele criou um sistema que, através de sensores a laser e câmeras, monitora velocidade e distância do veículo à frente e atrás. “O algoritmo reage de maneira suave a mudanças bruscas de velocidade. Esse tipo de sistema reduz o número de batidas e engarrafamentos”, afirma. O aparelho, sem previsão de lançamento, seria útil principalmente para evitar aqueles congestionamentos que começam sem um motivo aparente.
 (Foto: Revista Galileu)
CINEMA > FILMES SOB MEDIDA
Antes de chegar às telonas, boa parte dos roteiros de Hollywood passa pelas mãos de Nick Meaney. Meaney não é agente, cineasta ou produtor. É diretor da Epagogix, empresa britânica que prevê o sucesso de um filme baseado na minuciosa análise de seu roteiro. Em 2006, Meaney submeteu o script de Bem-Vindo ao Jogo à avaliação do algoritmo que ele tinha acabado de criar. O filme tinha tudo para ser sucesso: um roteirista premiado, Drew Barrymore no elenco e o fato de ser rodado em Las Vegas. Bem, segundo as previsões do algoritmo da Epagogix, ele não arrecadaria mais do que US$ 7 milhões — baita prejuízo para um orçamento de US$ 50 milhões. Não deu outra: a produção faturou US$ 6 milhões. “Aponto os pontos fracos. Se o produtor vai mexer no roteiro ou suspender a produção, a decisão é dele”, explica Meaney.
SUCESSO E FRACASSO: Os algoritmos previram tanto a aceitação da série House of Cards quanto a bilheteria pífia de Bem-Vindo ao Jogo (Foto: Divulgação)SUCESSO E FRACASSO: OS ALGORITMOS PREVIRAM TANTO A ACEITAÇÃO DA SÉRIE HOUSE OF CARDS QUANTO A BILHETERIA PÍFIA DE BEM-VINDO AO JOGO (FOTO: DIVULGAÇÃO)
Não é mágica. O serviço cruza dados de milhares de variáveis, como elenco, presença de vilões fortes e locação, quantificadas no roteiro. A fórmula analisa como essas variáveis se combinam e o quanto, em produções anteriores, filmes semelhantes arrecadaram. O pesquisador Bernardo Huberman, da HP Labs, faz algo parecido cruzando dados de tuítes sobre filmes na semana anterior ao lançamento. Para Querido John, previu uma arrecadação de US$ 30,5 milhões na primeira semana. O filme arrecadou US$ 30,7 milhões. “Através do número de tuítes, você prevê como um produto vai se sair no mercado”, diz Huberman.
Os  sistemas enfrentam críticas. A série House of Cards, também um sucesso com roteiro “testado antes” por algoritmos, tem sido um dos alvos delas. Em texto no site Salon, o crítico Andrew Leonard questiona se a estratégia não acabará com a diversidade das obras de arte, fazendo que só seja filmado o que os algoritmos indicam. Para ele, isso faria de nós “fantoches estúpidos”.
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 (Foto: Revista Galileu)


 
JORNALISMO > UMA MÁQUINA ESCREVEU ISTO
O título ao lado é falso, mas pode se tornar verdade em pouco tempo. “Dentro de 15 anos, 90% dos textos da imprensa serão escritos por computadores”, prevê Kristian Hammond, CEO da Narrative Science. A empresa, sediada em Chicago, já produz notas jornalísticas a partir de dados recolhidos na internet por algoritmos, sem interferência humana — uma fórmula da companhia já publica notícias sobre queda ou alta de ações automaticamente no site da Forbes, por exemplo. A intenção é que o algoritmo faça o trabalho mais mecânico para que jornalistas tenham tempo de entrevistar, checar fontes e correr atrás de “furos”. Por aqui, a PUC-RJ desenvolveu um software que ajuda repórteres do site globoesporte.com a selecionar aspectos relevantes do jogo e, a partir deles, sugere enfoques para a reportagem. Exemplos disso são textos sobre o jogo com mais faltas do campeonato brasileiro e outro sobre o jogador que bateu o recorde de infrações numa única partida, ambos sugeridos pelo algoritmo. “Eles produzem matérias simples, sem análise ou interpretação”, diz Daniel Schwabe, da PUC-RJ.
 (Foto: Revista Galileu)

 
RELACIONAMENTO > CUPIDO ELETRÔNICO
Pode um algoritmo dizer se o seu relacionamento vai funcionar? O site OkCupid cruza respostas de centenas de questões como “as mulheres devem manter as pernas depiladas?” e “quantas vezes ao dia escova os dentes?” para te indicar a pessoa que mais se aproxima do par perfeito. O algoritmo, feito por quatro matemáticos de Harvard, considera as respostas do usuário, as que esse usuário espera de seu “candidato” e a nota de importância que ele dá às questões — método copiado por outros sites. Mas, aqui entre nós, esses serviços não morrem de amores pelo rigor científico. “Até hoje, nenhum submeteu seus métodos ao crivo de pesquisadores. Dizem que o remédio faz bem, mas não revelam o que há dentro”, critica o psicólogo Harry Reis, da Universidade de Rochester.
 (Foto: Revista Galileu)

 
MEDICINA > DR. HOUSE ROBÔ
O britânico Max Little, professor da Universidade de Oxford, descobriu que poderia diagnosticar sintomas iniciais do Parkinson através de uma simples ligação telefônica. Após gravar 30 segundos de fala, o algoritmo analisa irregularidades na voz, como tremor e instabilidade da língua e dá o diagnóstico — com 99% de acerto, diz.
O algoritmo faz parte de uma tendência de diagnósticos por correlações. Um dos expoentes disso é uma parceria entre a IBM e a Dra. Carolyn McGregor, da Universidade de Ontário (Canadá). Seu algoritmo diagnostica sepse neonatal tardia, uma das principais causas de óbito entre recém-nascidos, antes de os primeiros sintomas aparecerem. O programa analisa diferentes fluxos de dados em tempo real (respiração, batimentos cardíacos, temperatura etc.) e identifica correlações não perceptíveis aos médicos. “Quanto maior a redução na frequência cardiorrespiratória, mais infecção”, diz Carolyn. Algoritmos já são usados também, inclusive no Brasil, para analisar raios X, tomografias e ressonâncias. Eles comparam novos exames com anteriores e detectam mudanças nas imagens, encontrando padrões que passam batido por humanos. A máquina  norte-americana MED-SEG, por exemplo, usa um algoritmo de imagem da Nasa para apontar essas anormalidades.
 (Foto: Revista Galileu)

 
AÇÕES > AS FÓRMULAS DA BOLSA
Em 10 de dezembro de 2010, o russo Sergey Aleynikov foi condenado a oito anos de prisão. Seu crime? Roubar um algoritmo. Ex-programador do banco de investimentos Goldman Sachs, ele foi acusado de furtar um código usado nas transações de alta frequência (HFTs, na sigla em inglês) de Wall Street. Isso porque ele recebia US$ 1,1 milhão por ano.
Em geral, essas transações vêm de softwares que preveem alterações quase imediatas no preço das ações e compram e vendem em microssegundos (veja mais ao lado). Se o objetivo é adquirir papéis da Petrobras a R$ 34,20 e vendê-los a R$ 34,25, tem de ser rápido no gatilho. E eles são. “Um algoritmo alcança velocidade muito superior. Caso ocorra um erro, ele vai tomar proporções bem maiores também”, alerta Rogério Paiva, sócio-diretor da BLK Sistemas Financeiros. Ele cita o caso do “flash crash” de 2010, quando o índice Dow Jones despencou 1.000 pontos em 20 minutos por conta de um algoritmo. Em outro problema recente, de 2013, algoritmos que interpretaram um tuíte errado levaram a um tombo na bolsa estimado em US$ 200 bilhões em apenas três minutos (entenda abaixo).
Essas grandes perdas ocorrem porque as transações ultrarrápidas por algoritmos não são mais um ponto fora da curva. Segundo estimativa da consultora Tabb, a operação já responde por 50% de todo o volume negociado nos EUA, 40% no Japão e 30% na Europa. No Brasil, representa 10% da movimentação da Bovespa. Sócio-fundador da Trader Gráfico, Carlos Martins afirma que as vantagens que os algoritmos levam sobre os operadores de carne e osso são incontáveis. “O mercado de ações exige disciplina, dedicação e sangue frio. Ao contrário dos humanos, os algoritmos trabalham 24 horas por dia, fazem sempre a mesma coisa, sem fugir de regras, e não têm medo de operar”, compara.
 (Foto: Revista Galileu)






















 
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FAIL > O QUE PODE DAR ERRADO QUANDO OS ALGORITMOS FICAM SEM SUPERVISÃO
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ENTREVISTA: SEAN GOURLEY
> ELES NOS SUBSTITUIRÃO
Criador de algoritmos e consultor, Gourley prevê que eles trarão mais desigualdade
 (Foto: Revista Galileu)
O que os algoritmos trazem de bom e ruim?
Eles podem fazer coisas simples com precisão, rapidez e de forma barata. Já os humanos são tendenciosos, caros e propensos a cometer erros. Mas algoritmos também são primitivos em suas capacidades cognitivas.
Todos seremos controlados por eles?
As finanças, uma das maiores indústrias globais, já são controladas por algoritmos. Governos estão lutando para descobrir como regulá-los e reaver o controle de volta — o que pode ser uma batalha perdida. Agora que os algoritmos aprenderam a se aproximar da escrita utilizando processos estatísticos, vão ler mais rápido do que nós e dominar áreas do conhecimento, como o Direito, onde a leitura é fundamental. Mas humanos e algoritmos unirão forças para resolver os problemas mais difíceis. Chamo isso de “inteligência aumentada”. O único problema é que essa inteligência não deverá ser distribuída igualitariamente. Para piorar, muitos dos postos de trabalho hoje ocupados por pessoas da classe média acabarão ficando com algoritmos.
Correlações matemáticas já resolvem problemas sem identificar o porquê deles. Seria o fim da teoria?
Acho que o [Chris] Anderson exagerou quando defendeu isso [na revista Wired]. No Google, por exemplo, eles tentam determinar o tom de azul perfeito para o link do AdWords, executam milhões de testes sem saber por que essa é a cor certa, e sabem que funciona. Mas eles não estão tentando mudar o mundo. Em situações de conflito, política ou terrorismo você precisa de uma teoria. Noto isso nas redes sociais. Começamos a otimizar algoritmos para mostrar a informação que está de acordo com nossas crenças. Só mostramos a amigos que gostam das informações que compartilhamos. Nos movemos em uma bolha gerada por algoritmos, e não sabemos como eles tomam as decisões. Precisamos ter mais controle. Precisamos de uma teoria.

I Guerra Mundial – O Legado

Conflito que completa 100 anos em julho foi o motor de mudanças profundas na nossa forma de viver e está ligado a invenções como tratores, calças femininas e até ao início do namoro

Infantaria alemã no campo de batalha, em agosto de 1914 (Foto: Reprodução)INFANTARIA ALEMÃ NO CAMPO DE BATALHA, EM AGOSTO DE 1914 (FOTO: REPRODUÇÃO)
Imagine uma tarde qualquer em Paris, Londres ou Berlim antes da Primeira Guerra, em 1913. Cavalos e carroças dividem a rua com bondes e poucos automóveis. Num café, homens leem jornais e discutem as novidades: aviões e corridas de carros. Desde a queda de Napoleão (quase 100 anos antes), a Europa inteira não se envolve numa guerra de grandes proporções. A África e boa parte da Ásia estão sob domínio dos europeus, e os colonizados são temas da arte moderna, para os quais crítica e público torcem o nariz. Moças em espartilhos e mangas até o punho jogam conversa fiada numa confeitaria, quem sabe sobre o voto feminino — que os homens consideram fútil. A tecnologia dava saltos, mas ainda se vivia sob valores da Era Vitoriana: o futuro seria a “marcha inexorável da civilização ocidental sobre a barbárie”. Essa era de certezas ganhou o nome de Belle Époque, a “bela época”.
Era um mundo no qual “todos sabiam o que glória e honra queriam dizer”, escreveu o historiador Paul Fussel, autor de The Great War and Modern Memory (A Grande Guerra e a Memória Moderna, sem tradução). Uma sociedade despreparada para a escala e os métodos inéditos de matança, que incluíam metralhadoras, bombas dispensadas de aviões, torpedos de submarinos e, mais que tudo, o tédio aterrador das trincheiras. Com o conflito, seriam perdidas 17 milhões de vidas. “O grande edifício da civilização do século 19 foi demolido nas chamas da grande guerra, quando seus pilares desabaram”, afirmou o historiador Eric Hobsbawn. Para ele, a guerra marca o início do “Curto Século 20”: um período de incerteza violenta, no qual nenhum valor passaria sem ser contestado. Nas páginas a seguir, mostramos como vários aspectos do mundo atual surgiram dessa destruição.
 
Refresque a memória:
A Primeira Guerra (1914-1918) começa após o assassinato do herdeiro ao trono da Áustria-Hungria. A morte desencadeou uma série de declarações de guerra pautadas por uma política prévia de alianças militares. No lado vencedor, as principais nações eram Reino Unido, Rússia e França — e os EUA, que  entraram no final da guerra. No lado derrotado, os protagonistas eram Alemanha, Império Austro-Húngaro e Império Otomano.
 
UNIÃO SOVIÉTICA > Como a Guerra ajudou a Revolução Comunista
Derrotas no conflito e falta de apoio popular para mais batalhas contra a revolução foram decisivos
Deu na Revolução: Guardas Vermelhos em 1917 em Petrogrado (atual São Petersburgo) durante ciclo de revoltas que resultaria na URSS (Foto: Reprodução)DEU NA REVOLUÇÃO: GUARDAS VERMELHOS EM 1917 EM PETROGRADO (ATUAL SÃO PETERSBURGO) DURANTE CICLO DE REVOLTAS QUE RESULTARIA NA URSS (FOTO: REPRODUÇÃO)
Além de estratégias militares obsoletas — algo que tinha em comum com outros países —, a Rússia padecia do fato de ser um país agrário numa guerra industrial. Seus constantes fracassos no front levaram à imensa revolta que explodiu em fevereiro de 1917. O exército recusou-se a suprimir as manifestações, e o czar Nicolau II abdicou no mês seguinte.  Vladmir Lênin, exilado na Suíça após se envolver em uma revolta similar em 1905, voltou à Rússia em abril com um objetivo. Marxista não ortodoxo, acreditava que era possível se fazer uma revolução do proletariado num país onde os trabalhadores industriais eram minoria. Outros comunistas, incluindo o próprio Marx, achavam que a revolução só poderia acontecer num país capitalista avançado. Mas Lênin conseguiu: em novembro, com o apoio dos Guardas Vermelhos, trabalhadores armados e militares de baixa patente, ele derrubou o governo provisório criado com a queda do czar. Nascia o primeiro estado marxista da história.
A Grande Guerra foi essencial para o sucesso da experiência. Seriam cinco anos de guerra civil até que a resistência fosse contida. Os países capitalistas até tentaram intervir em favor dos russos anticomunistas, mandando mais de 100 mil soldados — mas não havia apoio popular para outra guerra, e eles acabaram se retirando. A União Soviética, assim, sobreviveria, espalhando o comunismo  e liderando um dos dois grandes blocos da divisão geopolítica do século 1920.
ESTADOS UNIDOS > O novo centro do capitalismo
Grande vencedor, país passou de devedor a credor dos europeus




A entrada dos EUA na Guerra foi tardia, mas com consequências imensas. Suas tropas só viram ação em outubro de 1917 e passaram de 1 milhão de soldados apenas no ano seguinte. No entanto, ao declarar guerra à Alemanha, em 6 de abril de 1917, o país quebrava uma tradição de distanciamento em assuntos europeus que vinha desde sua independência. Foi uma intervenção para, nas palavras do então presidente Woodrow Wilson, “tornar o mundo seguro para a democracia”. Ainda hoje, a política externa americana é, em boa parte, guiada por essas palavras. Além disso, a guerra mudou o centro financeiro mundial.
Ao final de 1917, os Estados Unidos haviam emprestado quase US$ 3 bilhões aos governos francês e britânico para a guerra. Passaram de devedores dos europeus a credores do resto do mundo.”Como os vencedores europeus estavam profundamente endividados com os EUA, a capital mundial das finanças mudou de Londres para Wall Street”, escreve a historiadora Sally Marks.
AERONAVES > Surge o avião como conhecemos
Os bombardeiros deram início ao transporte aéreo
Na prática, quando a Grande Guerra começou, a indústria aeronáutica europeia tinha apenas 6 anos. O Flyer III, dos Irmãos Wright, foi apresentado em 1908 em Paris, e dele nasceu a indústria. No início da guerra, os aviões eram usados apenas para reconhecimento, decolavam desarmados. Os primeiros “bombardeios” consistiram em pilotos carregando pequenas bombas no colo e as atirando com as mãos. Mas a tecnologia avançou muito durante o conflito.
Todo o tipo de configuração foi testado naqueles anos, num desfile de formas malucas que lembra o desenho em que Dick Vigarista perseguia o pombo (inspirado na guerra, aliás). Na tentativa e erro, a forma definitiva foi surgindo: motor na frente e estabilizadores atrás, ao contrário das  primeiras máquinas dos Irmãos Wright ou de Santos Dumont. A velocidade máxima das aeronaves passou de 150 km/h a 230 km/h e, em 1918, bombardeiros carregavam mais de dez vezes o peso de um avião de 1914.
Os grandes bombardeiros, alguns convertidos diretamente em aviões civis, seriam a origem do transporte aéreo. Na década seguinte surgiram os serviços de viagens, principalmente em hidroaviões, já que aeroportos eram raros. Também graças à Guerra, os serviços tinham boa oferta de mão de obra: os veteranos do conflito.
 
 (Foto: Reprodução/ Evandro Bertol/Editora Globo)(FOTO: REPRODUÇÃO/ EVANDRO BERTOL/EDITORA GLOBO)
TANQUE > Primo do trator
Como o veículo militar mudou o jeito de fazer guerra e de conduzir  nossa agricultura
Tanque britânico Mark I (Foto: Reprodução)TANQUE BRITÂNICO MARK I (FOTO: REPRODUÇÃO)
O nome “tanque” vem de uma contingência da guerra. Era um jeito de despistar os alemães sobre a real natureza do invento, tentando fazê-lo parecer inofensivo, como um tanque de água. O nome real não pegou: o Comitê de Navios Terrestres foi criado na Inglaterra em 1915, para solucionar o impasse das trincheiras. Resumidamente, o emprego de metralhadoras tornava qualquer avanço de infantaria uma manobra suicida (veja abaixo). Estreando em setembro de 1916, o tanque britânico Mark I foi o primeiro da história. Passava por cima de arame farpado e das trincheiras, indo direto às metralhadoras, que destruía com seus canhões. Isso abria caminho para o avanço da infantaria. Os alemães mantiveram-se céticos e só produziram 20 unidades de seu único modelo, o A7V. Em 1918, pagaram com a derrota.
Uma consequência inesperada do veículo foi incentivar a indústria de tratores. As esteiras dos tanques foram copiadas de implementos agrícolas, mas esses só passariam a ser produzidos em grande número a partir da década de 20, quando a tecnologia, testada no combate, estava madura o suficiente. O trator foi um dos principais instrumentos da chamada Revolução Verde, que aumentou a produtividade e sextuplicou a produção de alimentos no século 20. Se você tem arroz no prato a um preço acessível, de certa forma, deve isso às trincheiras.
Adeus, pombo correio
No início da guerra pilotos recorriam a sinais com as asas ou as mãos, bilhetes jogados de aviões em latas ou sinalizadores (fogos de artifício) para transmitir mensagens. O rádio começou a ser usado em 1914 pelos britânicos, mas, como um aparelho completo não cabia no avião, era instalado apenas o emissor e o piloto mandava coordenadas das posições inimigas, sem receber retorno. Só em 1917 os americanos desenvolveram o rádio de avião, mas poucos puderam ser instalados antes do final do conflito. Esse invento — e a experiência em coordenar um grande número de voos — daria origem ao controle de tráfego aéreo, já no início dos anos 1920.
ESTRATÉGIA > Um novo jeito de combater
Tecnologia da grande guerra mudou para sempre as batalhas
 (Foto: Evandro Bertol/Editora Globo)(FOTO: EVANDRO BERTOL/EDITORA GLOBO)
SUBMARINO > Viagem ao fundo do mar
Avanço militar é relacionado a plataformas de petróleo e sonar
Os submarinos alemães U-boat (Foto: Reprodução)OS SUBMARINOS ALEMÃES U-BOAT (FOTO: REPRODUÇÃO)
O submarino dos aliados não passava de um veículo de patrulha costeira. O dos alemães era chamado de “navio submarino” (unterseeboot ou u-boat). Isso explica a diferença: apenas este avançava em águas profundas. Os u-boats ficavam invisíveis, emergindo, atacando, e submergindo para a fuga. Até a invenção das cargas de profundidade (bombas antissubmarino), em 1916, os aliados não tinham defesa contra eles. Foram mais de 5 mil navios afundados por torpedos durante a guerra — como os alemães não podiam enfrentar a marinha britânica na superfície, tentaram afundar qualquer navio (a maioria não-militar) que se aproximasse da Grã-Bretanha.
Os submarinos não são apenas um avanço militar. Seu desenvolvimento tornou possível que submersíveis passassem a explorar o fundo do mar. As plataformas de petróleo marítimas ou a exploração oceânica em águas profundas estão relacionadas a esse avanço. Outra criação crucial para a oceanografia também está relacionada aos submarinos: o sonar, a única forma de detectá-los, foi criado pouco antes da guerra e usado já em 1914 para mapear o fundo do oceano. O equilíbrio político durante a Guerra Fria também passou pela capacidade dos veículos: os submarinos nucleares eram uma garantia que, mesmo que uma das potências atacasse primeiro e destruísse todos os mísseis e aviões inimigos, ainda assim sofreria a retaliação atômica.
PROPAGANDA > A arte de demonizar
Têm início as campanhas para jogar a opinião pública contra inimigos do país
TRINCHEIRAS DO MARKETING: CAMPANHAS RETRATAVAM ALEMÃES COMO MACACOS E EUA COMO “GUERREIROS DA LIBERDADE” (FOTO: REPRODUÇÃO)
As potências centrais iniciaram a guerra, mas não cumpriam bem o papel de vilãs. Na América e Europa, havia muita simpatia por Alemanha e Áustria-Hungria. Embora fossem autoritários, os países não eram ditaduras e gozavam de liberdade de imprensa e grande prosperidade. A Alemanha foi o primeiro país a criar um sistema de seguridade social. Eram lugares vibrantes, sede de progresso científico e cultural. Basta lembrar que o cientista Albert Einstein era um filho do Império Alemão, e Freud, o pai da psicanálise, era austríaco.
Por isso foi necessário um grande esforço para reverter o respeito pelos germânicos da opinião pública. A Primeira Guerra viu a primeira ação massiva de propaganda governamental — no sentido estrito do termo, do governo tentando incutir ideias na população. Buscando recrutar soldados ou conseguir bancar investimentos para a guerra — os war bonds, títulos especiais que poderiam ser descontados anos depois —, a propaganda de ingleses, americanos e franceses transformaram os alemães em animais que pretendiam destruir a civilização. Os germânicos também aderiram à propaganda, em menor grau, geralmente com um tom mais defensivo, lembrando a hipocrisia da nação mais imperialista do mundo — o Reino Unido — posar como defensora da liberdade. Reflexos disso apareceram em governos totalitários ou democracias em guerra por todo o século 20 — como o notório “Brasil: Ame-o ou deixe-o” da época da ditadura militar.
COSTUMES > Depois do horror, a festa
Austeridade da Belle Époque e dos anos de guerra dá lugar a hedonismo e mina a repressão sexual
Como se fosse o último dia: Multidão dança em Londres na década de 1920 (Foto: Reprodução)COMO SE FOSSE O ÚLTIMO DIA: MULTIDÃO DANÇA EM LONDRES NA DÉCADA DE 1920 (FOTO: REPRODUÇÃO)
Bombas não destruíram apenas edifícios vitorianos, mas também o senso de decência da época. A geração dos sobreviventes e dos que eram muito jovens para lutar aderiu ao hedonismo. À austera moralidade da Belle Époque, seguiram-se os roaring twenties, os loucos anos 20, retratados em obras como O Grande Gatsby, de F. Scott Fitzgerald — ele mesmo, um veterano do confronto. Embalados a álcool (consumido ilegalmente nos EUA), jazz e carros velozes, os jovens passaram a experimentar a mais escandalosa invenção da época: o namoro. Antes, fazia-se a “corte”, com o rapaz se apresentando e pedindo aceitação da família da moça.  A crise dos anos 1930 e a ascensão do fascismo puseram fim à folia, mas a repressão sexual nunca voltaria a ser como antes, e cairia de vez durante a década de 1960.
VESTUÁRIO > Moda vinda da necessidade
As peças que têm origem ligada à primeira Guerra
 (Foto: Reprodução)(FOTO: REPRODUÇÃO)
ARTE > Modernismo vira mainstream
Horror da guerra ajuda a mudar a percepção sobre a arte

 
 (Foto: Reprodução)(FOTO: REPRODUÇÃO)





















Quando Las Demoiselles d’Avignon foi exibida por Picasso em 1916, mesmo os amigos do artista a consideravam uma vergonha. Ao ver a exibição, um crítico parisiense comentou que “os cubistas não querem esperar até o fim da guerra para continuar seu ataque ao bom senso”. Ele não era exceção: o modernismo era visto como uma frivolidade de meia dúzia de malucos antes da Primeira Guerra. A brutalidade do conflito fez com que a violência se incorporasse à arte e tomasse o espaço antes dedicado a celebrar a beleza. Nos anos 1920, artistas como Picasso deixaram de ser malditos para se tornarem figuras centrais. “Para nossa preocupação com velocidade, novidade, fugacidade e o mundo interior – com a vida vivida, como diz o jargão, ‘na via expressa’ –, uma escala inteira de valores teve de ceder lugar e a Grande Guerra é o evento mais significativo nesse desenvolvimento”, afirma o historiador canadense Modris Eksteins em The Rites of Spring: The Great War and The Birth of Modern Age (sem tradução).

A relação entre os nazistas e a chegada dos humanos na Lua

Mão de obra escrava seria responsável pela tecnologia dos foguetes espaciais existentes até hoje

Míssil alemão trouxe tecnologia que levou homem para a Lua (Foto: Reprodução)MÍSSIL ALEMÃO TROUXE TECNOLOGIA QUE LEVOU HOMEM PARA A LUA (FOTO: REPRODUÇÃO)
Setenta anos depois do ataque alemão às cidades inglesas na Segunda Guerra Mundial, vivemos sob efeito dos avanços tecnológicos criados pelo exército nazista. O outono de 1944 marcou o primeiro lançamento de um míssil teleguiado na história da humanidade. Sua tecnologia serviu de base para a Apollo 11 (responsável por levar o ser humano à Lua) e ainda inspira as naves espaciais existentes.
Criado pelo exército nazista durante a Segunda Guerra, estima-se que o míssil V2 – uma das últimas tentativas alemãs de se manter na guerra – tenha matado cerca de 2700 pessoas apenas na Inglaterra. Contudo, o dado mais trágico dessa história não está nas baixas causadas pelos mais de 1500 mísseis disparados em toda a Europa: mais de 20 mil escravos judeus morreram produzindo o foguete V2, uma máquina com 14 metros de altura e 900 kg de explosivos.

A “arma de retaliação”, como ficou conhecida, possuía um sistema de alta tecnologia. “O programa era caro em termos de vidas gastas. Os nazistas usaram trabalho escravo para fabricar esses foguetes”, afirma Doug Millard, curador do Museu de Ciência de Londres, em entrevista à BBC.

Os prisioneiros dos campos de concentração eram obrigados a trabalhar em uma fábrica subterrânea chamada Mittelwerk, no centro da Alemanha. Os escravos não viam luz do dia, não dormiam, mal comiam e qualquer forma de saneamento básico era raridade; aqueles que tentavam sabotar eram executados ou até mesmo enforcados e dependurados no alto da fábrica, como exemplo.

Mesmo assim, o engenheiro responsável pelo V2, Wernher von Braun, foi considerado por muitos um dos maiores heróis da guerra espacial. Para os Aliados, o V2 era a produção mais sofisticada da guerra. Com um motor capaz de alcançar 80 km de altura e voar por mais de 190 km, o foguete era mais complexo que o primeiro foguete espacial da história.
Trabalho escravo para produzir o foguete mais avançado tecnologicamente da história até então (Foto: Reprodução)TRABALHO ESCRAVO PARA PRODUZIR O FOGUETE MAIS AVANÇADO TECNOLOGICAMENTE DA HISTÓRIA ATÉ ENTÃO (FOTO: REPRODUÇÃO)
Avanços

Um dos mais impressionantes avanços criados pelo engenheiro alemão foi o fato do míssil não precisar de controladores, já que estava programado com o local que deveria acertar. Mais do que isso, o V2 conseguia recalcular a rota durante seu voo caso houvesse algum tipo de empecilho.

Mas isso não foi capaz de livrar a Alemanha da derrota. Em consequência, nações como Estados Unidos, União Soviética e Inglaterra fizeram de tudo para colocar as mãos no V2. Contudo, por Von Braun não querer trabalhar com os soviéticos, a arma caiu na mão dos norte-americanos.

Millard ainda completou: “Com os americanos querendo mais do que o hardware dos mísseis, eles começaram a trabalhar com Von Braun, que aproveitou para realizar seu sonho pessoal: viagens espaciais. E depois de algum tempo, o engenheiro criou o Redstone, míssil similar ao V2, para um exército. Em 1961, Alan Shepard, o primeiro astronauta americano, foi ao espaço com um míssil Redstone”.

Para o estudioso, a dependência foi mais longe: “Nós chegamos à Lua utilizando a tecnologia do V2. Seu desenvolvimento veio de alguns esforços massivos e bem cruéis”. Além disso, tudo que existe hoje é consequência dessa criação, como conclui o curador: “Ainda estamos vivendo a era do V2”.

Dez fotos raras da Alemanha de 1900, antes de ser destruída pelas guerras

Livro coleta belas imagens da paisagem germânica

Centro de Wernigerode (Foto: TASCHEN via BoredPanda)CENTRO DE WERNIGERODE (FOTO: TASCHEN VIA BOREDPANDA)
Aeditora alemã Taschen, especializada em livros de arte ricamente ilustrados, lançou uma publicação com mais de 800 fotos incríveis da Alemanha antes das Grandes Guerras do século XX. A obra, chamada Germany Around 1900, reúne fotos coloridas com o processo de fotocromia, que permite que fotos em preto e branco fossem impressas em cores. Confira algumas das imagens mais bonitas do livro, selecionadas pelo Bored Panda:
Palácio de Scherin (Foto: TASCHEN via BoredPanda)PALÁCIO DE SCHERIN (FOTO: TASCHEN VIA BOREDPANDA)
Castelo de Sigmaringen (Foto: TASCHEN via BoredPanda)CASTELO DE SIGMARINGEN (FOTO: TASCHEN VIA BOREDPANDA)
Costa de Westerland (Foto: TASCHEN via BoredPanda)COSTA DE WESTERLAND (FOTO: TASCHEN VIA BOREDPANDA)
Castelo de Neuschwanstein, em Munique (Foto: TASCHEN via BoredPanda)CASTELO DE NEUSCHWANSTEIN, EM MUNIQUE (FOTO: TASCHEN VIA BOREDPANDA)
À esquerda, o Castelo de Heinstein; à direita, uma guilda em Hildesheim (Foto: TASCHEN via BoredPanda)À ESQUERDA, O CASTELO DE HEINSTEIN; À DIREITA, UMA GUILDA EM HILDESHEIM (FOTO: TASCHEN VIA BOREDPANDA)
Ponte Bastei (Foto: TASCHEN via BoredPanda)PONTE BASTEI (FOTO: TASCHEN VIA BOREDPANDA)
Catedral de Berlim (Foto: TASCHEN via BoredPanda)CATEDRAL DE BERLIM (FOTO: TASCHEN VIA BOREDPANDA)
Cozinha típica alemã (Foto: TASCHEN via BoredPanda)COZINHA TÍPICA ALEMÃ (FOTO: TASCHEN VIA BOREDPANDA)

Expressar gratidão pode mudar seu cérebro

E faz muito bem para sua saúde

polegar  (Foto: FLICKR / Sarah Reid )EXERCITAR SEUS AGRADECIMENTOS PODE MUDAR A FORMA COMO VOCÊ ENXERGA O MUNDO (FOTO: FLICKR / SARAH REID )
Pesquisadores da Universidade de Indiana, nos Estados Unidos, chegaram à conclusão de que ser grato pelas pequenas coisas da vida pode causar grandes mudanças – inclusive cerebrais. Um artigo publicado no jornal científico NeuroImageatesta que, depois de poucos meses exercitando sua gratidão por meio da escrita, seu cérebro passa a se sentir ainda mais condicionado a ser grato. E isso traz benefícios. 
Para a experiência, foram chamados 43 voluntários que passavam por terapia para tratar depressão e problemas relacionados a ansiedade. Todos foram recrutados para uma terapia em grupo semanal, porém apenas vinte e dois deles foram chamados para a “sessão de gratidão”, por assim dizer: nos três primeiros encontros, os participantes passaram vinte minutos escrevendo cartas em que revelavam gratidão pelo destinatário (e poderiam escolher se enviariam ou não a carta). O outro grupo não participou desse exercício. 
Três meses depois desses encontros, todos passaram por um escaneamento cerebral, que ocorria simultaneamente a outro exercício: eram exibidas fotos de pessoas que, em tese, teriam feito grandes doações de dinheiro à pesquisa. Os participantes precisavam agradecer a eles pelo investimento, enquanto seus cérebros eram examinados. Todo mundo sabia que era apenas um exercício, mas foi dito a cada um deles que as doações realmente seriam feitas em algum momento. 
O teste foi claro: quem escreveu as cartas, três meses antes, demonstrou mais atividade cerebral nas áreas relacionadas ao sentimento de gratidão. Vale ressaltar que essas áreas responderam de forma ímpar: ações como se colocar no lugar do outro ou demonstrar empatia não reverberam da mesma forma no cérebro. É um sentimento único. E o mais empolgante é que o efeito de “exercitar a gratidão” é realmente duradouro: seja duas semanas ou três meses depois da experiência, é como se a massa cinzenta se “lembrasse” do comportamento carinhoso e passasse a agir mais dessa forma.A pesquisa compara esse treinamento a como exercitar um músculo: quanto mais você pratica a gratidão, mais propenso estará a senti-la espontaneamente no futuro.Isso ajuda a diminuir a depressão e passar mais tempo com aquele calorzinho bom de se sentir feliz com a ajuda de alguém.
Essas investigações sobre os efeitos de se sentir grato ainda são bastante primordiais – e os próprios pesquisadores admitem isso. Há muito a aprender em termos de efeitos desse sentimento no cérebro e se realmente podemos relaciona-los a efeitos de longo prazo na forma como pensamos e agimos no cotidiano. Mas enquanto isso, talvez seja mesmo bom espalhar #gratidão por aí – e não apenas em uma hashtag.

As tecnologias de diagnóstico que vão revolucionar a saúde

Celulares que monitoram a frequência cardíaca, exames de sangue que detectam Alzheimer e até cães que farejam o câncer

 (Foto: Gil Tokio)(FOTO: GIL TOKIO)
Muita coisa está prestes a mudar na forma como você se relaciona com o seu médico. Num futuro não muito distante, será possível vê-lo a qualquer hora e lugar, sem a necessidade de esperar semanas por uma simples consulta. Com a ajuda das novas tecnologias de diagnóstico, o médico do futuro terá condições de detectar na hora não só resfriados e infecções simples, mas também distúrbios cardíacos e os mais temidos tipos de câncer.
Essa revolução será possível graças a inovações como aplicativos de smartphones, chips implantados sob a pele, novos tipos de exames de sangue e até cães farejadores, que vêm sendo testados — e aprovados — na corrida para solucionar um dos grandes problemas da medicina atual: o alto índice de diagnósticos errados. Pesquisa publicada no Journal of the American Medical Association em 2012 estima que entre 10% e 20% dos pacientes norte-americanos são vítimas de erros na identificação de doenças — todos causados por médicos de carne e osso. Entre 40 mil e 80 mil pessoas morrem ao ano devido aos diagnósticos malfeitos.
“Sonho com o dia em que não haverá mais médicos prescrevendo coisas que façam mal”, diz Rodrigo de Queiroz Padilha, superintendente de ensino do Instituto Sírio-Libanês de Ensino e Pesquisa, que trabalha com gestão de tecnologia, inovação e conhecimento na atenção à saúde. Padilha é um dos pesquisadores que vêm testando novas tecnologias, como registros eletrônicos de saúde e dispositivos móveis para aprimorar a atividade médica. Uma mistura de tecnologia, bioengenharia e medicina cujo alvo é o bem-estar do paciente.
GADGETS > A ERA DO AUTOMONITORAMENTO
Aplicativos e gadgets acoplados ao celular ajudam a monitorar o coração, fazem exame oftalmológico e ainda identificam tumores
Aos 85 anos, o empresário Raul Randon utiliza um modelo peculiar de marcapasso. Desenvolvido na Alemanha, o aparelhinho foi feito para pacientes adeptos do “Home Monitoring”, sistema que permite fazer o controle cardíaco em casa. Durante o dia, o modelo não só previne arritmias como registra, em detalhes, a atividade do coração do paciente. À noite, um receptor sem fio lê os dados e os transmite para uma central de análises. Tudo é feito automaticamente. “Se há algo fora do normal, o sistema manda uma mensagem de alerta para o celular do meu cardiologista”, explica Randon.
Esse é o princípio do movimento Quantified Self, proposto por Gary Wolf e Kevin Kelly, editores da revista Wired. Trata-se de uma comunidade dedicada à criação de ferramentas para análise de dados pessoais — incluindo saúde. “A ideia não é nova. Pessoas com diabetes ou hipertensão estão acostumadas com isso”, diz Fábio Ricardo dos Santos, representante do Quantified Self no Rio de Janeiro.
A maioria dos aplicativos de automonitoramento oferece soluções banais, como planilhas para o controle da alimentação, qualidade do sono e sinais vitais — como o iStethoscope, que usa o microfone do celular para ouvir o coração. Mas há alternativas cada vez mais sofisticadas. O AliveCor, por exemplo, converte os impulsos elétricos da ponta dos dedos em sinais de ultrassom. Ele é capaz de emular um eletrocardiograma e enviá-lo ao médico. “Também há alternativas que permitem medir a saturação do oxigênio no sangue, fazer provas de glicemia, testes de respiração e outros exames”, diz o cardiologista Fernando Lucchese. No futuro, são esperadas ferramentas que analisem a corrente sanguínea em busca dos primeiros sinais de câncer.
Além dos aplicativos, os smartphones contam com outros gadgets para ajudar no diagnóstico de doenças. Entre as empresas focadas nesse tipo de dispositivo está a EyeNetra, criada pelo gaúcho Vitor Pamplona em Somerville, no estado norte-americano de Massachusetts. O Netra (sigla para Near-Eye Tool for Refractive Assessment) é um dispositivo que, acoplado a um smartphone, é capaz de realizar exames completos de visão — e diagnosticar o grau de miopia, hipermetropia ou astigmatismo do paciente (veja o quadro acima). Com um custo baixo, o aparelho pode mudar a realidade de 2,4 bilhões de pessoas no mundo que não têm acesso a exames oftalmológicos, segundo a Organização Mundial de Saúde (OMS). “Na Índia, temos profissionais que levam o aparelho a zonas rurais para realizar exames de visão. Nosso médico faz uma revisão online e aprova a prescrição, sem precisar falar com o paciente”, diz Pamplona.
Em Boston, a equipe do médico Ralph Weissleder, do Hospital Geral de Massachusetts (MGH), desenvolveu uma máquina de ressonância magnética que funciona acoplada ao smartphone. O dispositivo faz minirressonâncias magnéticas nucleares (RMN) e tem o tamanho de uma xícara de café. Com ele, os médicos demoram apenas uma hora para identificar se um nódulo suspeito é benigno ou maligno — ao contrário dos testes de laboratório, que podem demorar dias para ficarem prontos. O mais surpreendente é o nível de precisão da tecnologia. Dois testes foram realizados até agora. O primeiro teve um índice de 98% de acertos. O segundo chegou a 100%. Já os testes feitos pelos métodos convencionais não passam de 84% de eficiência.
O médico do futuro deixará de ser o detentor de toda a informação sobre a vida e a saúde do paciente. Ele assumirá uma função semelhante à de um analista — que toma as decisões com base nas informações proporcionadas pela tecnologia. “Médicos de consultório serão cada vez mais gestores da saúde”, diz Rodrigo Gobbo Garcia, do Albert Einstein.
 (Foto: Gil Tokio)(FOTO: GIL TOKIO)
SEQUENCIAMENTO GENÉTICO > SIM, O GENOMA SERÁ ÚTIL
Um laboratório norte-americano é capaz de fazer até cinco sequenciamentos genéticos por dia ao custo de US$ mil cada
A sequência completa do genoma humano foi publicada em 2003. O trabalho envolveu 3 mil cientistas de seis países e levou 13 anos para ser concluído, a um custo de quase US$ 3 bilhões. De lá para cá, as coisas já evoluíram muito (veja linha do tempo). Em janeiro deste ano, uma empresa da Califórnia chamada Illumina anunciou o lançamento de uma máquina capaz de sequenciar até cinco genomas por dia a US$ mil cada. 
A grande esperança é que, com a popularização do sequenciamento, as doenças possam ser combatidas antes mesmo de aparecerem. Será a realização de uma velha utopia da humanidade: a de erradicar todos os tipos de doenças congênitas. “Em até 20 anos vamos saber o nível de importância de cada gene e, ao nascimento, você vai poder planejar um tratamento para cada cidadão”, afirma Luiz Vicente Rizzo, diretor do centro de pesquisa do Hospital Albert Einstein.
O americano Phillip Stafford vai mais longe. “Poderemos diagnosticar doenças crônicas muito cedo, tratá-las e monitorar sua recorrência. Isso fará com que as drogas já desenvolvidas sejam muito mais úteis e eficientes”, diz ele. A grande revolução será com o câncer. Hoje, é quase impossível tratar um tumor que já tenha se espalhado pelo organismo. Mas, com o genoma, os médicos acreditam que será possível evitar seu aparecimento por meio de uma simples vacina. “Talvez nem cheguemos a saber que tínhamos um tumor”, diz Stafford.
 (Foto: Divulgação)(FOTO: DIVULGAÇÃO)
IMUNO ASSINATURA > SANGUE NOS OLHOS
No futuro, detectar doenças como câncer e Alzheimer será tão simples quanto fazer um exame de glicemia
Em julho, um grupo de pesquisadores do Instituto de Biodesign da Universidade Estadual do Arizona publicou um artigo no jornal Proceedings of the National Academy of Science apresentando uma técnica que pode revolucionar o diagnóstico do câncer. Trata-se da análise da “imunoassinatura” — feita a partir dos anticorpos que circulam no sangue (veja ao lado). “Numa pessoa saudável, as substâncias que circulam no sangue não são as mesmas de alguém que tem câncer”, diz o microbiólogo Phillip Stafford, que chefia a pesquisa. “Podemos determinar um conjunto de substâncias que só são encontradas em pacientes com tipos de câncer.”
Com a evolução da técnica, talvez seja possível fazer a verificação até mesmo em casa, com apenas uma gota de sangue — tão simples quanto um exame de glicemia. As chances de erro são mínimas. Nos testes realizados, Stafford e sua equipe aplicaram o método em seis grupos de pacientes com e sem câncer. Pela análise de “imunoassinatura”, foi possível identificar quem eram os doentes com 95% de acerto.
No futuro, os exames de sangue também serão usados para diagnosticar doenças neurológicas — entre elas o Alzheimer. Além de ser incurável, o Alzheimer é diagnosticável apenas quando ficam evidentes os primeiros sintomas: perda de memória, dificuldade de localização, agressividade e desmotivação. Um estudo publicado na revista Genome Biology revelou que um grupo seleto de microRNAs (miRNA) pode servir como indicador para diferenciar pacientes saudáveis daqueles que sofrem de Alzheimer. Basta um exame de sangue. Com a nova técnica, a precisão do diagnóstico de Alzheimer aumentou para 93%.
 (Foto: Gil Tokio)(FOTO: GIL TOKIO)
ONCOLIGISTAS CANINOS
O pastor-alemão: Tem a capacidade de farejar determinados tipos de câncer (Foto: Divulgação)O PASTOR-ALEMÃO: TEM A CAPACIDADE DE FAREJAR DETERMINADOS TIPOS DE CÂNCER (FOTO: DIVULGAÇÃO)
Nos Estados Unidos, a cadelinha Tsunami é a nova sensação da Universidade da Pensilvânia. O motivo? O pastor-alemão tem a capacidade de farejar determinados tipos de câncer — no de ovário, chega a acertar 90% dos diagnósticos. Outro estudo, liderado pelo italiano Gian Luigi Taverna, diretor da área de urologia do Humanitas Research Hospital, em Milão, alcançou um percentual ainda mais alto: Zoe e Liu, seus dois oncologistas caninos, cheiraram amostras de urina de 677 pacientes e identificaram, com 98% de acerto, quais delas pertenciam a pacientes com câncer de próstata. É claro que os cães jamais se tornarão frequentadores das clínicas de oncologia, mas a ideia dos pesquisadores é reproduzir a habilidade canina em máquinas e processos químicos que tornem o diagnóstico do câncer mais preciso.
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